PEDRA BONITA – JOSÉ LINS DO REGO
1º Parte Açu
2º Parte Pedra Bonita
PERSONAGENS
Padre Amâncio – modesto,
personagem central que dava lugar, algumas vezes à Antônio Bento Vieira,
ajudante do padre que a mãe deixou para que o padre o fizesse padre também ,
mas não houve dinheiro para tal realização. Aliás, dinheiro quem tinha em Açu
era só Clarimundo, o algodão lhe rendia lucros e seu comércio. Major
Evangelista, um fiscal que perdeu a esposa e vivia com a filha D. Fausta, uma
personagem psicológica que solteirona, vivia bordando para fora de Açu e que
tinha ataques por falta de sexo/homem.
Padre Amâncio foi jovem para Açu, com sonhos de tudo mudar, mas
Açu era maldição de Pedra Bonita – cidade onde homens milagrosos queriam ser
como Jesus e Padre Cícero, que levavam o povo às alucinações e fanatismo , ao ponto de largarem tudo na vida e ir
para a Pedra Bonita – lugar com duas pedras enormes como torres de igreja.
Se por um lado o romance ressalta o poder sacro, pro outro
revela como vivem os sertanejos e como muitos se tornam cangaceiros devido ao
Estado tratá-los pela força, sem qualquer explicação, dizimando famílias e mais
famílias, pela vingança sem fim.
A temática é sem dúvida o fanatismo, as religiões – o
catolicismo. Mesmo falando do padre Cícero que enfrentou bispos e seguiu
fazendo milagres, como também exalta a figura do Padre comum, mas santo, que
vive para os pobres, sem vaidade e sem ambição. Destaca também o poder da
política pelo cômputo de amenizar o que o exército fazia com famílias de
cangaceiros, como também as pessoas fugiam de Açu. O quanto ali só jogavam o
lixo da sociedade que não tinha mais corretivo.
Ali, nem a estrada de ferro conseguiu chegar, no dia em que os
engenheiros ali apareceram foram destroçados pelos cangaceiros – chefe, irmão
de Bentinho, Aparício.
Domício era tão santo como o padre ou mesmo seu irmão Simão
Bento, mas acabou fanático ao ponto de matar em nome de Deus. Também levou mãe
e pai para o embusteiro AnTõnio Ferreira, como Padre Amâncio o classificava.
O Padre até tentou parar o fanatismo mas quase foi linchado.
Deodato o irmão mais de Bentinho foi explorar o amazonas, de onde poucos
sobreviviam e na seca de 1904 a mãe de Bentinho o largou em Açu nas mãos do
padre para que tivesse um futuro diferente de seu povo de Pedra Bonita. Local
que era amaldiçoado e que a culpa estava na família dos Vieiras da qual
Bentinho pertencia. Na primeira vez que apareceu um homem milagroso por lá, foi
um dos Vieiras que denunciou ao Governo que iriam matar virgens e crianças e o
que houve foi uma matança sem fim.é uma trama que saindo da temática principal
– fanatismo reliiogo e cangaceiros – podemos ver uma galeria de personagens e
histórias paralelas que nos prendem a atenção de tão bem descrita e
interligada. A obra é tão valiosa que até os personagens secundários aparecem
psicologicamente bem desenvolvidos e trabalhados.
Há também descrição sexual bem atrevida para a época quando D
Fausta passa a sonhar e desejar Antônio Bento, há até uma cena em que ela o
pega de jeito, porém que não se repete. Bentinho não era de mulheres, nem seu
irmão Domicio.
A repetição de cenas descritas é um recurso do autor para que o
leitor não se perca e o narrador oniciente fala por todos.
Num discurso indireto são muitas e muitas cenas diferentes e
tantos personagens que não se pode de todos falar. É necesário que se fale de
Maximina, a empregada negra do Padre que vez ou outra bebia escondida e saia a
falar com todos e com quem ninguém mexia, sua língua era traçoeira quando
bebia. Foi ela quem ajudou o padre a criar Antônio Bento, aliás as duas pessoas
que Bentinho gostava eram eles. Depois se apaixonou pela vida livre do
Dioclésio, um violeiro que cantava as desgraças da terra. Mais tarde também seu
irmão Domício era sua paixão.
A moda viola e os repentes, as canções que narravam as histórias
tristes do cangaço eram os atavios que davam ao romance o uso da metalinguagem
com grande riqueza descritiva.
O romance de José Lins do Rego traz com o fanatismo religioso o
santo que o autor era devoto na vida real : Nossa Senhora da conceição.
Pedra Bonita do Araticum , com sua lenda da mulher linda que
chama os homens para o abismo, também era a pedra dos milagres e dos fanáticos
que matavam, num todo o romance é a descrição de um mundo rural do Nordeste, cidades
esquecidas pelo Governo, um mundo de contínua fuga voltando sempre para suas
raízes.
Aparício uma espécie de lampião, um homem que tinha na imagem e
no falatório uma visão de cangaceiro do mal, capaz de fazer barbaridades,
temido por todos, que nenhuma companhia do Governo conseguiu prender, mas por
outro lado um simples irmão, amigo que se preocupava em vingar pelo que fizeram
com seus pais e desde então não houve mais trégua para o cangaceiro.
No sertão são três as vozes de comando, o padre, os cangaceiros e o governo quando
sente necessidade de intervir, no mais é uma injustiça sem fim e um morrer sem
pedir, colinas de severinos.
SARGENTO DE MILÍCIAS - MANUEL ANTÔNIO DE ALMEIDA
Inicia-se
com a fórmula dos contos de fada: “ era uma vez ” - Um rei,
um romance de costume do Rio de Janeiro na época de D João VI e sua
família real. Um romance baseado na manifestação espanhol tardia de um pícaro,
como sugere Mário de Andrade. Ou um realismo antecipado, deixando para trás
todo o romantismo, como defende José Veríssimo. Já para Antônio Cândido,
Memórias de um Sargento de Milícias é uma variante nova espelhada no romance
picaresco, que dá origem ao malandro amoral, o anti-herói de nossa época e sua
estrutura dialética da ordem e desordem?
Romance
que mostra o abuso do poder e nenhuma punição. Como se amoral fosse qualquer
gesto de corromper e ou ser corrompido – atualmente bem lembrado pelo nosso
Presidente (Brasil) que diz ser caixa dois uma ferramenta contábil
indispensável e normatizada.
Narrativa
que busca em Leonardinho, filho de
Leonardo Pataca e Maria Hortaliça retratar um anti-herói, um malandro, um
agregado- um não parentesco que muito existia naquela época - capaz de aprontar
todo tipo de malandragem para se safar das confusões em que se envolvia, da infância ao ser adulto.
Leonardinho
após ser expulso de casa por um pontapé do pai, ao se desentender com a
madrasta é criado pelo padrinho, um barbeiro que não quer nunca enxergar no
sobrinho esse malandro incorrigível que entre tantos desencontros sempre se
dará bem no final – e sempre terá alguém para ampará-lo como se sempre fosse
uma indefesa criança, como esse mesmo padrinho.
Não
fosse as críticas e estudos da teoria da literatura, seria apenas um romance de
leitura prazerosa e divertida sem qualquer compromisso, um simples romance de
costumes e lazer.
Considerando
a época, o esquecimento das características românticas, o sucesso no final do
romance do malandro, as descrições minuciosas dos costumes da época, o título
do romance de um cargo que o anti-herói só recebe no último capítulo, a
interação dialógica narrador e leitor, a linguagem coloquial entre personagens
agregados – teoria de Roberto Schuarz dos brancos livres - as analogias dos
cargos jurídicos não mais respeitáveis como antes, o abuso de poder centrado no
Major Vidigal que julga, condena ou absolve quem quer mas que também será
manipulado pelo nosso protagonista, a reclamação do salário por Leonardo
Pataca, enfim, podemos dizer que é um romance pertencente ao realismo com uma
estrutura íntima e delicada, denunciativa de fatos essencialmente reais.
Com
esse jogo de ordem e desordem amoral e até com final feliz, nasce aqui a dialética do malandro: Leonardinho – defendida
por Antônio Cândido - que despertará posteriormente, novos romances como
Macunaíma de Mário de Andrade e outros.
Com
a letra da música, abaixo, composição Martinho da Vila: Memórias de Um Sargento
de Milícias, pode-se entender um pouco mais o enredo do livro.
Era
o tempo do rei
Quando
aqui, chegou
Um
modesto casal feliz pelo recente amor
Leonardo,
tornando-se meirinho
Deu
a Maria Hortaliça um novo lar
Um
pouco de conforto e de carinho
Dessa
união, nasceu
Um
lindo varão
Que
recebeu o mesmo nome do seu pai
Personagem
central da história que contamos neste carnaval
Mas
um dia Maria
Fez
a Leonardo uma ingratidão
Mostrando
que não era uma boa companheira
Provocou
a separação
Foi
assim que o padrinho passou
A
ser do menino tutor
A
quem lhe deu toda dedicação
Sofrendo
uma grande desilusão
Outra
figura importante em sua vida
Foi
a comadre parteira popular
Diziam
que benziam de quebranto
A
beata mais famosa do lugar
Havia
nesse tempo aqui no Rio
Tipos
que devemos mencionar
Chico
Juca, era mestre em valentia
E
por todos se fazia, respeitar
O
reverendo amante da cigana
Preso
pelo Vidigal
O
justiceiro
Homem
de grande autoridade
Que
à frente dos seus granadeiros
Era
temido pelo povo da cidade
Luisinha
primeiro amor
Que
Leonardo conheceu
E
que Dona Maria, a outro como esposa concedeu
Somente
foi feliz
Quando
José Manuel
Morreu
Nosso
herói
Novamente
se apaixonou
Quando
com sua viola
A
mulata Vidinha, esta singela modinha cantou:
Se
os meus suspiros pudessem
Aos
seus ouvidos chegar
Verias
que uma paixão
Tem
o poder de assassinar
OS LUSÍADAS - LUÍS DE CAMÕES
Com seus dez cantos e 1102 estrofes, 8816
versos decassílabos heróicos, medida nova, Camões construiu numa linguagem
lírica – linguagem para narrar feitos históricos – a viagem de Vasco da Gama
para estabelecer contato marítimo com as Índias, com o livro Os Lusíadas,
dividindo-o em três partes: Introdução, narração e epílogo.
Nessa epopéia o herói está representado
por Vasco da Gama, mas quem realmente é exaltado é o povo português. Com o
Renascimento, os valores da igreja já em segundo plano e ainda, influenciado
pelo alargamento dos horizontes geográficos de Portugal, com as viagens de
circunavegação, com uma extraordinária prosperidade econômica,
Camões escreve Os Lusíadas com um
inusitado e maravilhoso mundo pagão, a mitologia cria vida com deuses em divergências
no Olimpo, uns tentando destruir a viagem e outros fazendo a proteção. A parte
pagã dos versos é a que mais movimenta toda a obra. Há uma riqueza brilhante em
cada canto, com seus versos medidos e visuais, como se assistíssemos a uma
grande batalha e viagem.
Resume-se a obra na batalha de Júpiter e
Baco; em Melinde que ao chegar Vasco da Gama é chamado a contar a história de
Portugal; a partida quando ocorre o caso dos Doze da Inglaterra, durante uma
tormenta; o regresso à pátria; o herói deveria ser Vasco da Gama, mas é o povo
Português, desobedecendo aos parâmetros de uma epopéia.
No epílogo Camões não consegue dar
importância ao caráter objetivo, histórico, transindividual da poesia épica,
envolvido com seus próprios sentimentos que vê nos portugueses um ufanismo
desenfreado e medíocre sem perceber que a Espanha está á espreita e faz
sobressair a sua verdade íntima, profunda e intransferível de homem e poeta.
Ele transfere para seus personagens suas frustrações e sentimentos, trocando
até o pronome de terceira pessoal para de primeira pessoa, criando episódios
líricos com inspiração poética particular e subjetiva para os personagens
secundários, contrariando os padrões do épico. Visionário ou eleito Camões
conseguiu aliar medieval, humanismo e classicismo nessa perfeição poética,
esses versos universais que tocam nossos sentimentos até hoje.
O PONTO CEGO - LYA LUFT
O Ponto Cego é mesmo uma perspectiva vista,
unicamente, pelo menino narrador que vislumbra pelos corredores da casa as
teorias freudianas na medida em que narra os mais diversos posicionamentos das
personagens, que vai da mãe, passa pelos filhos, o pai, as tias ao tio nando – que seria o único a receber
nome não fosse Letícia-a filha morta.
Por mais que a autora negue até mesmo conhecer alguma
coisa sobre Freud, não há como alguém ler
e não se asssutar com tantas teorias desfilando páginas e mais páginas
pelos cinco capítulos do livro.
É
um romance com tantas particularidades psicológicas que atravessamos a leitura
com êxtases e mais êxtases ao deparar com tantos aprofundamentos e conhecimento
da alma humana. É uma rede psicológica que devora. Devorar - Verbo presente do
início ao fim da leitura em simbologia usada pelo bicho da seda - que tio Nando
presenteia ao menino- que devora as folhas para produzir matéria prima, assim
como os seres humanos se devoram para depois produzir ou mesmo descobrir algum
sentimento precioso.
As
inovações vão desde personagens sem nome ao trazer de volta personagens de
romances anteriores, aliás a autora afirmou que suas personagens reclamam
quando não mais são usadas e além disto há um apego afetivo que vez ou outra é
preciso ressuscitá-las.
A
linguagem quase sempre metafórica cria um atmosfera íntima, uma cadeia densa e
precisa quando analisa através do ponto cego situação por situação vivenciada
pela família.
Toda
história está relacionada com a família, cada ente é descrito de uma forma
simples mas aprofundada e caracterizada, como se as personagens fossem criadas
de dentro para fora - característica do Movimento Realista - é uma leitura
menos científica e muito prazerosa.
Quem
não ouviu da boca de Lya Luft não conhecer nada de Freud jamais acreditaria que
a autora não criou suas personagens a partir das teorias Freudianas. Só não
entendo como Lya Luft cita Freud em uma de suas crônicas na revista Veja.
O
menino narrador que faz questão de não crescer, não consegue imaginar seus órgãos crescendo
para fora do corpo, dissimula esse não crescimento a partir do momento em que sua
mãe já não brinca mais com ele e nem o enche de carinhos, ao mesmo tempo que
não gosta do pai e critica durante toda narração o poder patriarcal quando na
verdade tudo pertencia a mãe e essa se fazia nada para que o pai fosse o
tudo. O pai desde que perdeu sua filha
caçula e preferida desgostou de tudo e
ignorava e desvalorizava o menino. Um
complexo de édipo perfeito uma das teorias de Freud se mostra aqui.
Já
o filho sublimava todo esse desafeto ao desenvolver uma narrativa minuciosa e
interessante de cada personagem, capaz de fazer de todos o que bem quisesse,
como um controlador de suas vidas.
Esse
brincar de criar aliado ao ser criança reforça a teoria de Freud em que as
crianças que mais brincam estão mais propensas a serem artistas. Cabe aqui a
teorias Freudianas da sexualidade e
sublimação e do narcisismo quando o menino fala em vigança.
A
estruturação ego-absorção faz-nos
analisar o menino em três aspectos: o
que ela havia de ser, o que ele gostaria de ser e o que ele era – o próprio
artista, apesar de ser na narrativa ignorado e ridicularizado por todos,
principalmente pelo pai.
Oscar
D’Ambrósio é perfeito ao dizer: “ há no livro uma lúcida mistura de realismo
fantástico com momentos de densa penetração psicológica.”
É
um livro que até o momento em que falei com Lya Luft parecia-me um romance que
foi elaborado de um modo tão detalhista e trabalhado e esmerilhado e pesquisado
mas que após esse encontro, entendi que
criação é um estado humano que jamais alguém poderá conceituar e comprovar.
Aliás, nem Freud o conseguiu.
Mrs. Dalloway, Virginia Woolf; tradução Mário Quintana. Rio de Janeiro:Nova Fronteira, 1980.
Já na primeira página um signo muito
familiar me deixa com uma grande dúvida. O signo frêmito me leva para a poesia
de Mário Quintana - o tradutor - mas não estou em uma folha em branco, e sim, nas folhas
escritas de Virginia Woolf em Mrs Dolloway.
Passada a familiaridade vou adentrando o
mundo inglês e toda sua estrutura de majestades e ruas e monumentos e esquinas
e cotidiano dos personagens amigos jovens de um passado se encontrando muitos
anos depois em um dia não programado para esse encontro em uma festa preparada
por Clarissa Dalloway para a burguesia londrina de 1920, em Westminster, meados
de junho.
A narrativa consegue destacar milhares de
detalhes maravilhosos pelo olhar de Clarissa
e ainda narra a história vivida pelos seus amigos em seus caminhos diferentes
após tantos anos. Cada qual com um destino bem diferente do que se imaginava e
em um dia tudo será descrito por Virginia Woolf.
E nesse dia tudo acontece até mesmo a
volta daquele que seria seu esposo não tivesse escolhido Richard Dalloway para
ser seu marido. Peter Walsh aquele que dizia que ela meditava entre os legumes
e que voltou para se separar de uma indiana e com tal coragem procurou Clarissa
para lhe dizer que ainda a amava. Um reencontro ricamente detalhado e
inesperado.
Como sempre, muitos personagens e muita
descrição marcam a narrativa de Virginia Woolf que faz comentários
inesquecíveis. São pensamentos sábios e intrigantes para nossa vida tão comum.
Uma das características de Virginia aparece novamente nessa obra, a sua
capacidade de elaborar narrativas com o pensamento dos personagens. Outro
recurso marcante são os elos das cenas sem cortes como em um filme, que
Virginia consegue criar entre um assunto e outro; entre um personagem e outro;
entre um local e outro.
A vida de cada personagem é descrita com
recursos da descrição que esbanjam conhecimento de Londres e sua corte.
Clarissa relata tudo que vê e fala de todos e tudo que convive ou conviveu.
Clarissa a partir do passado vai
relatando como está a vida de cada amigo do passado, como eram e como ficaram
após tanto tempo. Recorda-se do admirável amigo Hugh Whitbread que se casou com
Evelyn - esposa doente - e com o filho Jim. Hugh um manequim, um gentleman. Peter
Walsh que a amava e com quem achava que se casaria, mas que foi para a Índia e
por lá se casou. Richard Dalloway com quem se casou e teve Elizabeth uma linda
filha. Sally Seton sua amiga e de Peter, uma moça livre com sangue francês
brigada com os pais que se divertia sendo sempre irreverente e que acabou com
muitos filhos e um marido bem sucedido, o que ninguém esperava.
A partir dos principais amigos, Clarissa
sai às ruas de Londres no dia de sua festa descrevendo-os em detalhes e vida.
Desde a florista Miss Pym ao primeiro ministro da Inglaterra. Aliás, há uma
intacta e bela descrição da passagem do carro da família real – a grandeza
passando – com seus vidros instransponíveis, uma impressionante caracterização
de cada pessoa ali observada por Clarissa e que observavam tal passagem. O respeito e a imponência.
Há um grande capítulo que relata a vida
de Septimus e sua esposa Lucrezia Warren Smith delicadamente chamada por Rézia.
Septimus um doente com visões pós-guerra que consegue invadir a narrativa e
absorver grande parte com conflitos e neuras. Uma parte da história que se
prende numa rede psicológica em que Rézia sofre bastante ao ver seu amor tão
distante da realidade.
Também há outros personagens que
enriquecem a narrativa como os dois médicos inconciliáveis um pior - Dr. Holmes
- e o outro mais moderno Dr William. Miss Kilman uma mulher independente e
rígida que tenta absorver o amor e a atenção da filha de Clarissa pra si. Lady
Bruton e seus almoços no Union Jack - pavilhão do Reino Unido - que não a
convidava, mas sempre convidava seu marido Richard para falarem de negócios.
Clarissa Dalloway recebe em sua festa - sempre
preocupada e dedicada com a nobreza - toda a elite londrina e também todos os
amigos do passado, mas dentro dela os questionamentos introspectivos não podem
ser dissipados por uma festa em que até Peter Walsh está presente.
Mrs.Dalloway ficou caracterizada como uma
obra-prima por em um dia criar um romance a partir de uma única festa. Ainda
assim, sem ser crítica literária, acredito que Virginia Woolf criou sua
verdadeira obra-prima foi quando escreveu Rumo ao Farol, apesar do romance
deixar algumas ideias soltas, perdida, como se houvesse muito mais para narrar.
Em Mrs Dalloway toda a história é bem elaborada e acabada, talvez por ter sido
fixada em um tempo cronológico.
Clarissa – Érico Veríssimo ( RS) – Ed. Verbo, 1971- autor de Olhai os lírios do campo...o tempo e o vento
Narrativa em
terceira pessoa, onisciente, descreve personagens silenciosos que ultrapassam o
autor em suas histórias criativas ao divagar horas e horas.
Clarissa a
personagem principal, uma menina silenciosamente cria seu mundo e dele revira
tudo do jeito que deseja...Sonha e sonha...com seus 13 anos inicia o romance e
com seus 14 abandona o livro, voltando para sua terra, um sítio do interior ao
terminar seus estudos na pensão de Eufrasina, tia Zina, onde podia observar,
descobrir e analisar tudo que via através dos hóspedes tão diferentes em suas
idéias e personalidade.
A temática
parece ser a introspecção...o mundo subjetivo de cada pessoa, ainda que Amaro,
um inquilino de 40 anos que amava compor e ser poeta e que sobrevivia pelo
emprego bancário, era sem dúvida parecido com Clarissa no seu silêncio e
aprofundamento de tudo que observava, diferindo apenas que era infeliz por nada
ter conseguido na capital de seus sonhos artísticos. Já Clarissa começava a vida, era alegre e até
gostava de conversar mas adultos não conseguem dar todas respostas que um jovem
adolescente necessita saber. E então, com a tia que a tolhia até de sair para
seu bem, só tinha noticias de seu mundo adolescente através de duas amigas
irmãs que saiam e namoravam muito. Clarissa analisava cada hóspede e por
Amaro a curiosidade era maior, de tão
calado que era. E Amaro amava contemplar Clarissa, amava-a silenciosamente,
afinal 25 anos os separavam na idade.
Érico
mostra personagens puros, personagens
mais atrevidos e consegue num misto de idéias criar uma expectativa durante
toda a leitura e que nunca se concretiza. A idéia que se tem é que alguma coisa
forte vai acontecer na pensão, mas o único acontecimento que escapa e que
movimenta a trama é a morte de Antônio Conceição Barbosa o Tonico, rapaz que
sofreu acidente de trem e perdeu as pernas e que seu sonho era ser soldado e ir
para guerra. Vivia na cadeira de roda
exposto ao sol, esquecido ao sol. no quintal da casa vizinha à pensão.
Há informações
de todos os pensionistas porém Amaro é um pouquinho mais importante por
sustentar até o final da história um romance que se sugere entre ele e
Clarissa, mas que não acontece.
O final também, nas últimas linhas, o autor revela o quanto
Amaro se interessava por Clarissa ao colocá-lo no quarto dela, vazio, após sua
partida e fazendo Amaro levar o maior susto ao ouvir uma voz gritar: Clarissa.
Foi como se tivessem descoberto seus mais íntimos sentimentos. Porém o autor
deixa suspeitas de que era apenas o Mandarim a gritar – o papagaio.
Uma leitura
leve e gostosa, que fala de nós mesmos, personagens constantes dessa vida de
existir e ser alguém. Cada um acredita e vive do jeito que acha melhor, cada um
tem sua crença, sua vida e seus conhecimentos internalizados, e cada um vive
como lhe foi possível viver.
A pensão é de
classe média, com estudantes, velhos e a única criança. Clarissa. Até os
animais fazem parte da história, cada um ao seu jeito de viver. Desde uma
simples formiga, ao cachorro de rua, ao papagaio ou pirolito, peixinho que
amaro lhe dá de presente nos seus quatorze anos.
Enfim, é um
romance com narrativa psicológica que questiona a vida e as nossas ocupações na
sociedade, a diferença entre os sonhos e os pensamentos com a realidade, a
prática para sobreviver.
Uma história
que tem de tudo que a vida tem até hoje, pessoas de todos os tipos e gostos
numa luta igual para apenas poder existir dentro de um sistema que preza pela
produção e consumo da vaidade.
Úrsula - Maria Firmina dos Reis
Maria
Firmina dos Reis, primeira poetisa maranhense, nasceu em 1825 e morreu em 1917, aos
92 anos de idade. Em 1859 publicou Úrsula,
primeiro romance brasileiro anti-escravagista e primeiro escrito por uma mulher no Brasil, com marcantes características
do Arcadismo. A autora faz uma descrição contagiante quando descreve as dores
dos negros escravizados em meio um romance que em antíteses fortes mostra o
amor e o sofrimento.
É
uma leitura difícil em seu vocabulário não atualizado – preservação do idioleto
da autora - e tão simples em sua
linguagem descritiva da natureza - bioma e dos sentimentos humanos,
independentes de épocas. Uma leitura muito interessante e marcante, pela época
em que foi escrita e o modo como nos é apresentada: com erros propositais dos
originais, sendo um dos mais presentes o uso de mesóclises em verbos não
passíveis delas. Interessante também são os sobrenomes dos personagens
terminados apenas com suas iniciais e as reticências: Luisa B..., Paulo B...,
Fernando P...e os lugares e cidades no mesmo padrão diferenciado, marca da
escritora. Também marcante é o recurso: utilização da segunda pessoa, pelo
personagem anti-herói Tancredo quando se declara para Úrsula.
RESUMO
Narrativa
sobre o amor de Tancredo por Adelaide uma
órfã que foi cuidada pela mãe de Tancredo, enquanto ele fazia curso em São Paulo,
durante seis anos. Quando volta é que se apaixona por Adelaide, mas uma
ardilosa armadilha é feita por seu pai.
Um homem austero e seco que por maus tratamentos acaba definhando sua esposa em desgostos e humilhações. Após a morte de sua mãe,Tancredo volta para desposar Adelaide, mas a surpresa o faz doente e muito deprimido, pois seu pai casara com sua escolhida.
Tancredo
sai perambulando em seu cavalo, pelo mundo e ao cair na estrada já bastante
debilitado encontra e faz amizade forte com o escravo Túlio – até compra sua
liberdade - e também encontra mais tarde o anjo de sua guarda, uma donzela
pura e linda: Ùrsula.
Úrsula
é filha da paralítica Luisa B... que foi destruída pelo irmão cruel e
desajustado e algoz Fernando P... que
também matou seu marido Paulo B. E que irá se apaixonar pela amada segunda de
Tancredo: Úrsula.
Todo
o enredo parece ser o desencontro, tanto dos escravos, quanto de seus senhores,
um enredo sem final feliz, em que o Comendador P vai matando e molestando todos
que não lhe façam as vontades.
Matando
Tancredo, o Fernando ou Comendador P carrega Úrsula para sua casa, mas esta não
se recupera do trauma de ver seu amado sendo morto pelo punhal de seu algoz e
acaba morrendo de pura insanidade.
Loucura
que atinge o Comendador que a vê morrer sem nada poder fazer e este também se
entrega à tristeza e acaba em um convento como o louco Frei Luis de Santa
Úrsula. Perseguido em pensamentos por suas crueldades Frei Luis têm acessos de
loucura e ódio, até que um padre lhe escuta e Fernando vai se definhando aos
poucos entre raivas e arrependimentos.
Há
muitos personagens secundários em meio à trama que reforçam a escravidão - o
sistema que oprime os menos favorecidos – e enaltece a lealdade dos humildes, a
beleza da amizade de Tancredo e Túlio, a fidelidade entre Luisa D e Susana,
valores que embelezam toda a obra, além da escravidão essa rede psicológica
densa que nos prende ao romance até o fim, apesar de não haver qualquer
suspense. A maior surpresa é a decepção, pois ninguém tem um final feliz.
PROBLEMÁTICA
DA OBRA
Comecemos
pela citação: “Deus não protege a quem se opõe à vontade paterna.” Essa máxima
retrata o poder da opressão patriarcal, que a narrativa nos passa. O machismo
declarado em personagens como o pai de Tancredo e Fernando P – irmão de Luísa B
mãe de Úrsula.
Percebemos
que a mulher ocupava um único lugar na sociedade que era cuidar da casa, não
exerciam qualquer atividade fora dela.
Seus
algozes eram os próprios maridos que delas faziam o que bem entendiam – como o
pai de Tancredo – que levou a mãe em tão grande desgosto que culminou numa
morte precoce.
As
mulheres não podiam reclamar de nada e se matavam em dor, mas não enfrentavam
as atitudes patriarcais, tais como de Fernando P que também levou a mãe de
Úrsula em uma morte antes do tempo, de tanta pressão e desgosto que este lhe
causou, inclusive matando seu marido Paulo B. Eram todas submissas às suas
ordens.
CONCLUSÃO
Numa
linguagem simples, com um vocabulário da época, impressiona sua coragem em
delatar o poder opressivo patriarcal, os fortes e radicais tratamentos dispensados aos escravos e ainda,
o lugar comum da mulher daquela época: casamento.
São
vinte capítulos e um epílogo com muitos erros gramaticais e ortográficos que se
trocam em um vocabulário rico em sua época e descrições bucólicas perfeitas,
além da facilidade em narrar todo tipo de sentimentos que povoam os seres
humanos, heróis ou simplesmente personagens secundários.
É
sem dúvida uma obra rica que nos faz viajar em sentimentos, que talvez estejam
em fase de extinção, ou não; uma obra que nos faz pensar nos sofrimentos dos
escravos, que nos faz viajar em um tempo mágico e tão simples. A marca maior da
narrativa é a simplicidade, os diálogos tão limpos, tão abertos e ao mesmo
tempo profundos.
Um
romance tão particular, tão marcante como o foi em sua época e que nos faz
comparar e entender uma época passada.
É
importante, vez ou outra passearmos pelos movimentos literários, conhecer obras
para saber diferenciar e valorizar o que lemos. Essa obra nos mostra que a cada
época há um modo de ser, há um modo de se comportar, há um jeito de criar.
Sabemos que o contexto influencia a obra do autor e o melhor a fazer ao julgarmos
uma obra é conhecer o contexto do autor para saber exatamente qual é a riqueza
que o autor quer nos mostrar.
CORRELAÇÃO
ENTRE OBRA E ATUALIDADE
A
supremacia das classes dominantes, essa divisão até nossos dias, entre os
fracos e os fortes; os ricos e os pobres, causam-nos ojeriza pelo opressor, que
aumenta cada vez mais a distância entre uma classe e a outra. As injustiças
aparecem mais e mais e os marginalizados vão se alastrando. Ainda que não haja
mais escravidão africana, há uma escravidão financeira que o Capitalismo gera.
As divisões de chefias, os prêmios, fazem com que uns queiram ser mais que os
outros e essas diferenças dão início à concorrência e assim os meios já não
justificam o que se busca. O sucesso, o melhor lugar e assim vão escravizando
outros, os mais fracos. Na narrativa podemos facilmente ver o poder de Fernando
P... que não importa como quer conquistar tudo e todos, sem se importar como o
fará. Até mesmo matando se for preciso. O que até hoje acontece, quem assistiu
ao filme Brasília 18% pode entender
do que se fala. Fernando P chega ao máximo de sua prepotência quando quer
comprar o amor de Úrsula, como se pudesse comprar um amor. Se fosse nesta época
talvez não fosse assim tão difícil, mas naquela época as pessoas ainda eram fiéis
ao sentimento amor. Em nossa época, muitos se vendem pelo dinheiro, até se
compra amores.
PERSONAGENS:
Principais: triângulo amoroso: Ursula, Tancredo e
Fernando P . Tancredo como anti-herói
Secundárias:
Adelaide, Susana, Túlio, Antero, Luisa D..., Paulo D... seu marido, Sarcedote,
Padre.
ENREDO : Romance impossível ou patriarcalismo
ESPAÇO: Interior estado brasileiro, muita natureza,
fazendas.
TEMPO: CRONOLÓGICO/ LINEAR: Mais de vinte anos
PONTO DE VISTA: Trama sentimental - foco principal - para delatar problemas da
época em tópicos menores, porém bem intensos, como patriarcalismo e escravidão.
CARACTERÍSTICAS
DO ARCADISMO NA OBRA
-
Bucolismo: em todos os capítulos a presença da excessiva descrição da natureza
de forma límpida e pura;
-
O fingimento poético – a facilidade como os homens esquecem a amada,
apaixonando-se platonicamente e rapidamente pelas belas e puras donzelas;
-
Os amores, os nomes dos amantes gravados na árvore pela donzela, as paixões;
-
A linguagem simples e adereçada com antíteses entre os sentimentos amizade,
amor e dor;
-
A idealização platônica das mulheres amadas;
-
Na maioria dos capítulos a exaltação da natureza está acima de qualquer
discurso.
-
Vocábulos ligados ao Arcadismo: como donzela, pura, anjo da salvação, cavaleiro
melancólico, exílio.
Dora Doralina – Raquel de Queiroz
José Olympio: 1987. Rio de Janeiro
A narração pela personagem-protagonista, Dora Doralina, como gostava de ser chamada, afinal era assim que seu pai a jogava para o alto e dizia carinhosamente. São reminiscências de sua infância na cidade do interior do Ceará, Aroeiras, na fazenda Soledade. Com a morte do pai, sua mãe - tratada por Senhora - era quem a tudo e a todos dominava. Uma mãe-mulher que adultera com seu genro, Laurindo, um homem sem valores, um agrimensor que casara por interesse. Só não se sabe se o caso com a mãe já existia antes do casamento.
A primeira parte “O Livro da Senhora” se dedica mais ao caso de
Senhora e Belmiro, um fugitivo que encontrou em Doralina uma santa a lhe salvar
a vida quando em Soledade apareceu todo ferido e foi curado e hospedado. Tudo
indica que foi Belmiro quem matou Laurindo para lavar a honra de Doralina.
Aliás, crime que nunca foi desvendado e nem mesmo vinte anos depois, quando Belmiro
foi encontrado em decomposição, numa cabana em que vivia como um ermitão.
A segunda parte é “O Livro da Companhia”, acontece quando Doralina vai
morar na pensão de D Loura, onde trabalha administrando a pensão, depois
conhece o senhor Brandini, dono da Cia Comédias e Burletas Brandici Júnior, e
passa a transcrever os textos das apresentações e depois quando uma das atrizes vai para São Paulo, Doralina ocupa seu
lugar nos espetáculos. Com apoio sempre de dona Loura, que mais parecia sua
mãe, inicia sua vida como Nely Sorel. Faz inúmeras viagens, até que conhece o
Comandante de um navio e se apaixona por ele. E larga a cia, mas continua
sempre amiga de Estrela e Brandini.
A terceira parte O Livro do Comandante
ou do Cadete Lucas, é sua história ao lado de Asmodeu – nome bíblico e
demoníaco – um homem com quem se fez feliz sempre, mesmo entre tantos
desconfortos e apertos, pois apesar da profissão de professor de tiro, era
mesmo contrabandista de objetos menores, viviam assim, desses trabalhos
ilegais. A cumplicidade é a marca da fidelidade entre os dois, que passam a
vida lutando pela sobrevivência, até que um dia mais uma vez sua febre chega e
não vai embora, o leva.
Com a morte do comandante, Doralina
volta para a fazenda no tempo certo, tempo de tudo recomeçar com a mesma força
e pertinácia de Senhora e acordar sos empregados e dar vida a um mundo de
pessoas que não sabem viver sem um senhor. Até onde a escravidão condena um
homem em não saber mais quem é e o que pode fazer por si mesmo, passando por um
processo de morte quando livre de seu dono.
Enfim, Doralina, é obrigada a tomar a frente e continuar vivendo,
mesmo que nada mais tenha motivo de alegria.
Sua
vida toda foi um lutar por estar viva...Como dizia capitão no início do livro
quando ainda não o conhecíamos e que Doralina
já falava dele com tanto amor: “ Doer, dói sempre. Só não dói depois de
morto, porque a vida toda é um doer.”
O autor narra a história de uma personagem que ora some entre
tantas superstições, crenças e adorações.
Um povo nordestino que crê muito em santos e neles coloca
responsabilidades pelo que acontece em suas vidas. Como foi o caso de Belmiro.
Doralina inicia a narrativa refletindo sobre a dor e seus efeitos,
desgastes. Queria ser Alegria ou Isolda, mas Doralina aceita sua história e seu
nome ora no plano psicológico, ora cotidiano, tentando narrar sua própria
história, através de tantos outros personagens que acompanharam sua vida e que
mesmo longe deles não conseguiu se desvencilhar da teia densa que a prendia
dentro do triângulo amoroso: sua mãe, ela e Laurindo...Um adultério enterrado e
mal resolvido que irá acompanhá-la para sempre.
ANGÚSTIA - GRACILIANO RAMOS
Angústia é um romance psicológico, com narrador protagonista Luís da Silva, um rapaz de 16 anos que fica só no mundo, ao perder o pai, e cresce menosprezado por não ter o nome grande do avô - Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva - e nem ter conquistado nada.
É
interessante verificar que Graciliano Ramos inicia o romance com o que acontece
no final do livro, ou seja, utiliza recurso de Machado de Assis que começa
Memórias Póstumas de Brás Cubas pelo enterro do personagem. Aqui o começo se
faz aos trinta dias de tortura, que Luis da Silva passa após cometer, no final
do livro, um homicídio.
Luís da Silva cresce com um senso crítico aguçado ao mesmo tempo que também
cresce com um sentimento agravante de baixa autoestima, de autodepreciação, que
irá interferir em toda sua vida. Luís é
um funcionário público lotado na Diretoria do Tesouro em Maceió-AL com um
salário médio, mas submisso aos chefes se sente um grande estúpido em tudo que
tem vontade de fazer.
Seu
inimigo Julião Tavares, um conquistador de mulheres, sócio da empresa Tavares
& Cia, que corrompe Marina, a namorada de Luís, com quem fazia o enxoval
para o casamento. Uma mulher que em comum com Luís só mesmo a atração sexual,
pois esta gostava só da luxuria, o que acabou com as economias de Luís. A cada
dia que Julião tentava conquistar Marina, mais Luís o odiava, chegando mesmo a
nutrir com o tempo, um verdadeiro asco psicótico. Luís também entra em
depressão, passa a beber, não toma banhos, perambula sem qualquer vontade de
existir. Luís vivia uma vida de alucinações, que vão tomando corpo, como se
fossem aos poucos se materializando conforme as oportunidades surgidas.
Desliga-se de Marina e se embrenha pelos caminhos da angústia e necessidade de
exterminar Julião, e os seus pensamentos tomam forma de cordas, fios, casos de
vingança de honra, prisões e assassinatos.
Quando
Marina aparece grávida é o ápice da loucura e psicose de Luís, que passa a
vigiar os dois e ao descobrir que Julião manda Marina abortar, Luís se
arrepende, mas chega a chamá-la por nomes torpes.
E
quando um mendigo lhe dá uma corda, do nada, Luís não tem mais dúvida, segue
Julião até a casa da nova amante dele. Quando Julião aparece em sua frente em
meio uma névoa da madrugada, Luís o enforca e prende o corpo em uma árvore.
Após
isso, Luís vira um idiota que não entende mais nada, esfarrapado, sujo,
atordoado e sem memória, não sai mais de casa. Tudo são abandono e sentimento
de solidão, porém a simbologia do ato de Luís fica nítida no homicídio, como se
Luís tivesse arrancado do mundo a raiz do mal, da injustiça, da desigualdade
que tanto tinha aversão quando mata Julião. Foi como se tivesse banido da humanidade todos
os homens ruins. É romance
psicológico intenso, angustiante mesmo, de um funcionário público crítico e
inconformado com a rotina e desigualdade social.
BREVE ROMANCE DE SONHO
Arthur Schnitzler; tradução Sérgio Tellaroli. Rio de Janeiro: O Globo, São Paulo: Cia das Letras, 2003
Já nas primeiras páginas de Breve Romance de Sonho senti alguma analogia com alguma situação
vivida, quando resolvi ler as “orelhas” do livro verifiquei a identificação:
foi baseado nessa obra-prima que Stanley Kubrick em 1999 criou o filme De Olhos Bem Fechados, com Tom Cruise e
Nicole Kidman como protagonistas. A fidelidade dessa criação é primorosa, pois
identifiquei logo a verossimilhança.
Em um monólogo íntimo Fridolin – médico da policlínica
e um consultório em casa – esposo de Albertina e com uma filhinha vivencia, em
dois dias, drásticos momentos em que seu subconsciente o atormenta a partir de
uma confissão da esposa. Fridolin e Albertina pessoas lindas, inteligentes,
educadas e fiéis, no entanto a narrativa se embrenha pelos caminhos nada
explicáveis do subconsciente e sonhos ao mesmo tempo circunstanciados em total
sexualidade e neutralizado pelo desprezo ao óbvio.
A trama iniciada com a confissão de infidelidade da
esposa vaza pelos momentos vividos por Fridolin e a partir dali, mais
precisamente quando encontra um velho amigo – músico Nachtigall - que por
insistência de Fridolin lhe passa uma senha para um baile de máscaras em uma
sociedade secreta de gente da corte, aristocratas, arquiduques, com hábitos de
monge, máscaras e mulheres lindíssimas e nuas, em rituais de orgias e penumbra.
A narrativa são sonhos, fantasias do inconsciente que
destruía aos poucos a relação de Albertina e Fridolin em crises de ciúmes e
possessões tão somente por que não conseguiam ser transparentes em seus
pensamentos mais íntimos, no entanto, quando tentavam ser, criavam forte sentimento
de vingança.
Incrível como sexualidade e sonhos íntimos são
secretos, são velados, são às vezes inconfessáveis e nessa narrativa, Arthur
Schnitzler consegue de forma, nada convencional, mostrar as crises psicológicas
de Fridolin que se dizia ser “médico trabalhador, confiável e promissor, bom
marido, bom pai de família quando, ao mesmo tempo, consegue ser em pensamentos
íntimos: devasso, sedutor, cínico, com homens e mulheres a seu bel-prazer.” Tudo,
entretanto, tornava-se irreal em sua vida, porque nada concretizava desse seu
lado libidinoso. São tantos encontros em dois dias, tantos desejos sexuais,
seja com Marianne ao lado do corpo de seu pai, que Fridolin não conseguiu
salvar; seja com a Baronesa Dubieski – a mulher encantadora da sociedade
secreta que o enfeitiçou; seja com a prostituta com quem apenas conseguiu oferecer
guloseimas. Fridolin enriquece de forma plena toda a narrativa. O final é
dedutivo e cada leitor terá seu final particular.
Para quem gosta de literatura e psicologia é uma
deleitosa e primorosa leitura que questiona nossa dupla vida e nossa frustrada
e limitada vivência sempre com preconceitos, obrigações e medos. Sempre com
relacionamentos nada transparentes. Para quem assistiu e gostou do filme De olhos bem fechados gostará bem mais
da leitura. É realmente uma obra-prima.
Quanto à explícita ligação da narrativa com sonhos e
sexualidade Freudiana deixo aqui um trecho da carta que Freud enviou a Arthur:
Sempre que me deixo absorver profundamente por suas
belas criações, parece-me encontrar, sob a superfície poética, as mesmas
suposições antecipadas, os interesses e conclusões que reconheço como meus
próprios. Ficou-me a impressão de que o senhor sabe por intuição – realmente, a
partir de uma fina auto-observação – tudo que tenho descoberto em outras
pessoas por meio de laborioso trabalho. (Freud,
1922)
A Mulher Desiludida - Simone de Beauvoir
De Simone de Beauvoir dividiu a obra A mulher desiludida, ricamente, em três contos:
O primeiro uma autobiografia, uma mãe, uma escritora existencialista e André um esposo intelectual e ético. Pais que educam Felipe para uma vida como a deles: íntegra, educada e ética, porém Felipe aparece após algum tempo fora da vida depois de casado como funcionário do Ministério da Cultura cargo indicado pelo sogro situação expressamente inaceitável por seus pais, mas é a mãe que o enfrenta com mais rigidez ao ponto de romper relações com o filho por um tempo.Entre muitas tentativas, mais tarde Filipe amolece o coração da intelectual mãe escritora, afinal sua mãe é uma crítica que estuda profundamente Rousseau e Montesquieu, nela tudo é meticuloso, é destrinchado, descritivo e crítico, que aliás é o que mais enriquece o conto. Toda essa descrição e posicionamento nesse conflito de geração, de mudanças. O filho busca a vida que acontece, a agitação do mundo e a correria em busca de um lugar no mundo seja como for.
Sua mãe uma existencialista que não quer aceitar as mudanças do mundo e das pessoas, como se fosse possível viver como somos sem ser afetado pelo que vem do mundo e de suas reis mudanças, sem muitos sentimentos, mas muito realismo e praticidade;
O segundo conto é sobre Murielle uma mulher de 43 anos que analisa e critica cada gesto alheio. Com a morte da filha, que aparenta ser suicídio, sentiu morrer junto com a filha e jamais conseguiu recuperar esse tempo, para aumentar ainda mais sua excessiva capacidade de julgar teve que abrir mão de seu filho para o marido, em troca de uma pensão e um lugar para morar. Lugar esse desprezível e vazio e solitário. Uma marca interessante desse conto é a ausência de vírgulas, talvez para não interromper seu modo de vomitar tudo que pensa e julga sem parar durante todo o conto. Julga a preferência de sua família pelo marido que a roçou por outra, julga as pessoas que só sabem parir, julga o excesso de pessoas no mundo, julga a filha que a abandonou, julga o mundo cheio de gente, detesta gente. Uma mulher e um monólogo denso, construído com tantos julgamentos em sua maioria com procedência, um deles é quando fala que a civilização é capaz de sujar a lua, mas não podem aquecer um apartamento. Era frio seu apartamento, como tantos outros mal construídos;
No terceiro e último conto, também denso e detalhado, uma mulher
que vive de cuidar do lar perde o marido e é desprezada pelas filhas, sendo
obrigada a conviver em um lar desfeito na solidão de seus pensamentos e do seu
medo de encarar o futuro, tão sozinha, mas abrirá as portas que foram fechadas,
afinal essa obra revela um feminismo disfarçado que leva três mulheres
ultrapassarem o limite que fora imposto pela classe dominante em tantos anos,
sem deixar espaços para mulheres brilhantes, escritoras brilhantes.
A Montanha
Uma narrativa onisciente que surpreende a cada página virada. Uma
maneira bem original de falar de Deus, ou melhor, de falar com Deus. Não um
Deus normal, idealizado por nós humanos, mas um Deus que até então eu e muitos
de vocês desconhecemos. São duas histórias, uma dentro de Mack e outra com sua
família. Ele que ao sofrer a perda de sua filha amada, volta ao local do crime
para desvendar o mistério de um bilhete recebido após três anos e meio. O
narrador dispensa qualquer parâmetro nosso, paradigma, conceito, ideologia. Ele
abre um caminho não percorrido por nós, caso tenhamos percorrido, com certeza,
nem percebemos.
É muito, muito interessante a forma como o narrador nos embala numa
história que fala de nosso universo de um jeito inusitado, com um pouco de
descaso até. Basta que se aprecie citação
abaixo que mostra esta conotação. É como se nossa vida estivesse construída
com alicerces falsos. Será difícil chegarmos a entender quem realmente é Deus e
seu mundo. Como somos nós e o que precisamos para viver realmente. Juntos você
e eu podemos estar dentro do sistema e não fazer parte dele; Religião, política
e economia é a trindade de terrores criada pelos ser humano que assola a Terra
e engana aqueles de quem eu gosto.
É incrível como mostra o quanto falamos de Jesus, o quanto
conhecemos Jesus e nada sabemos do ser humano. Deus que numa visão interessante
desperta curiosidade o tempo todo da leitura em que dele se fala. E além desta
nuance, ainda há uma história da família e seu cotidiano e todo o suspense de
uma busca policial por Melissa Missy uma dos cinco filhos – a mais nova - de
Mack e Nannete - Nan - que some durante um acampamento em Oregan –
Canadá. E mais tarde, após três anos e meio de busca pelo corpo, é sentenciada como
vítima de homicídio.
Há toda uma trama policial e existencial que queremos desvendar
numa leitura o mais rápido possível para ver seu desfecho. Todas as explicações
para a vida e questionamentos de Mack são para nós mesmos e o que mais nos
incita é esta mistura de nossas vidas com a dele.
Mack era um homem que só vivia de Sofia - Sabedoria - fugiu de casa
aos treze anos, por não aguentar ver o pai surrar tanto sua mãe. Um pai super
religioso que quando bebia batia tanto na mãe e nos filhos que Mack não
suportou.
Parece uma história de ficção ou não, que pode acontecer com você,
comigo e caso queira suas respostas; leia este livro interessante. Encontrará
surpreendentes passagens com uma desconstrução total do mundo humano,
levando-nos a suspeitar se nossa realidade: real, ou não. Como todo livro que
segue a linha da desconstrução de nossa realidade, deixa contradições visíveis,
no caso com relação à hierarquia criada pelo ser humano que tanto aparece no
capítulo quinze.
Quando pensamos que tudo termina, que tudo se resolve, Mack Allen
Phillips sofre um acidente de carro e em coma já não sabe mais o que é
verdade. E a história se estende um
pouco mais e revela outras maravilhas da existência.
O final também surpreende, mas é imprescindível que faça esta
leitura e tire suas próprias conclusões, cada um tem seu jeito de ser e de se
relacionar com o mundo e as pessoas, o que dará a cada um uma viagem bem
diferente.
Acrescento que se você fizer a leitura deste livro em épocas
diferentes de sua idade, com toda certeza, a resenha teria que ser adaptada
para cada época de sua vida! Nunca pensaremos a mesma coisa e do mesmo jeito
com o passar da idade e contextos vividos, a cada época de nossa vida nos
transformamos... Para muitos a sabedoria e mais as experiências pessoais nos moldam,
modificam e para quem ama se aperfeiçoar, acrescenta uma sabedoria mais lapidada
e preciosa, mais em comunhão com Deus de verdade.
Um Livro – Homenagem ao
livro “A Pomba” de Patrick Süskind
Numa dessas esquinas nem muito limpa e nem muito suja há sempre uma padaria, uma banca, um ponto de ônibus e algumas lojas. Foi numa dessas lojas, nessa esquina movimentada, que Richard resolveu entrar; era um sebo. Tinha ainda meia hora do seu horário de almoço, já tinha almoçado aquela comida de sempre, aquele prato de sempre. Arroz, bisteca, feijão, salada e mandioca. Não suportava beterraba. Lembrou-se da fila, a expressão de cada cidadão que observou. Um gordo de bigode que usava aqueles ternos quase sujos, quase limpos. Uma mulher magra com aqueles vestidos sempre de manga curta. Os dois jovens que pareciam trabalhar no escritório de contabilidade. Tinha também um policial que sempre almoçava sozinho e inquieto. Era um restaurante caseiro e pequeno com aquelas toalhas feias, que parecem mal lavadas. Tudo de madeira que quase quebra de tão antiga. Richard nunca ligou muito pelo ambiente, queria mesmo comer barato e economizar para realizar seu sonho. Dentro do sebo aquele cheiro de mofo como das toalhas do restaurante, de papel velho, de gente esquisita, de gente que não olha para ninguém, só mesmo para os livros. O dono um senhor bem velho, de óculos, franzino, cabelos branquinhos e um ar aborrecido de intelectual frustrado. Richard gostava do cantinho com os romances, até perdeu a conta de tantos que já havia lido. Sempre comprava um livro, não conhecia muitos escritores, mas gostava da capa e muitas vezes não sabia nem pronunciar o nome do autor de alguns deles. Apenas gostava ou não da leitura, mas sabia escolher os melhores. Mexeu em todos os livros e não achou nada interessante; foi quando o dono da loja chegou com uma caixa e dela retirou muitos livros e os colocou em cima dos outros sem nem arrumá-los. Richard fez uma cara de mau. Não gostava que tratassem os livros daquela maneira, tão friamente como se não houvesse personagens sensíveis dentro deles, porém eram mais livros chegando, deixou para lá a sua raiva. Olhou todos os livros e um deles lhe chamou a atenção. Não pela capa, mas pelo título: A pomba. Deu um riso irônico e pensou: como poderiam colocar um título tão sem graça, tão sem interesse, tão insignificante. A Pomba. Uma pomba. Ainda mais naquela cidade grande que ninguém gostava de pomba. Todos passavam por elas sem enxergá-las, eram aves totalmente sem encantamentos e ainda transmitiam muitas doenças.
Sempre
andava com aquele jeito diferente e instigador, mais vezes era investigador,
afinal era um segurança. Apesar de ser segurança não estava trabalhando como
tal. Emprego estava difícil, só conseguiu de motoqueiro, precisamente
entregador de pizza. Não suportava ver pizza, nem mesmo sentir o cheiro daquela
massa que era espremida, jogada para alto, enrolada, desmanchada, socada o tempo
todo pelos amigos que trabalhavam na cozinha. Dizia que eram seus amigos, mas Richard
vivia sozinho e quase não saía, economizava para realizar seu grande
sonho. Não teve dúvida, já estava na
hora de voltar para o serviço, resolveu levar o livro de título sem graça. Só
comprava assim. Só os livros que mais chamavam a atenção por algum detalhe,
fosse ruim, ou interessante. Esse era pelo lado ruim, mas queria ver do que se
tratava o livro. E depois era bem barato, não gostou muito da espessura.
Gostava de livros mais grossos, esse tinha lá menos de cem páginas. Pagou e
saiu.
A tarde
findara e Richard caminhava para seu lar. Já dentro do metrô, pega seu livro e
começa a leitura. Começa pelas orelhas. De um lado uma foto e uma síntese sobre
o autor, um alemão veterano de guerra. Do outro nada tinha. Sorriu com
sabedoria. Como sempre não se enganou. Sabia mesmo escolher um bom livro. Com
certeza era uma história de guerra, logo entendeu o título. A pomba que
representa a paz. Guerra e paz. Gostava de filmes de guerra, iria gostar da
história com certeza. Iniciou a leitura avidamente, mas morava perto, não deu
para ler muito. Richard entra na pensão, cumprimenta dona Matilde e o senhor
Lino. Os dois eram os proprietários. Um casal de idosos bem aparentados e
organizados em excessos. A pensão é o oposto do restaurante. Tudo é tão limpo e
cheiroso e o melhor, não muito caro. A pensão tinha vinte quartos. Dez em cima,
dez embaixo. Richard morava no primeiro quarto do andar de cima, com uma janela
discreta de frente pra rua, uma cama, uma mesa e um armário. No armário sempre
coloca na parte de cima seus livros. São muitos livros, todo tipo de
literatura. São muitos autores diferentes e ele os separa por livros nacionais
e estrangeiros. Engraçado é que sempre coloca alguns livros no lugar errado.
Stanislaw Ponte Preta foi colocado no lado dos estrangeiros e José Maria Eça de
Queirós foi colocado no lado dos nacionais, no entanto isso pouco importa, não
é? Richard toma seu banho, coloca uma bermuda cor de laranja e uma camiseta de
cor branca, com sandálias de borracha desce para o jantar.
Após o
jantar volta ao quarto, joga-se na cama e pega seu livro novo, tão velho,
achado num sebo na esquina da Rua Teodoro Sampaio com a Fradique Coutinho. A
cada página lida seu olhar e suas expressões faciais se alteravam
constantemente, não conseguia nem piscar, lia sem parar, como se a leitura o
sugasse, o digerisse, o agarrasse. A
leitura não tinha nada de guerra, não havia tanques, não havia metralhadoras e
nem qualquer pista de planos para resgatar alguém ou mesmo interferir em
guerrilhas civis ou até mesmo salvar a filha do general. Decepção? Não. Richard
foi envolvido por uma leitura diferente, bem mais envolvente e interessante.
Uma trama psicológica que o assustava, uma história psicótica, macabra com uma
simples pomba. Um animalzinho tão simples, não? Doenças vêm de todos os
lugares, não é só da infeliz da pomba. Como podia imaginar? Havia lido que o
autor vivenciou a grande Guerra Mundial. Mesmo não sendo de guerra e seus materiais
bélicos não deixava de ser uma guerra com emoções e sentimentos únicos,
incontestáveis. Quase terminou a leitura antes mesmo de seu horário de dormir.
Tinha que dormir. Acordava muito cedo. Richard ficou impressionado com a
história do livro. Como podia um homem velho, um vigia ter medo de pomba. Como
podia um autor escrever tão bem ao ponto de acreditar que alguém deixa de viver
só por que encontrou uma pomba quietinha na porta de seu quarto. Uma pomba que
o encarou e arrancou a sua alma. A pomba não o deixava passar pra mais lugar
algum. Ele passou a fazer suas necessidades fisiológicas dentro do quarto,
viveu sem banho, sem ir trabalhar, sem dormir, sem comer, sem se mexer, morreu?
Ainda não sabe. Não terminou de ler. Ele não gostou muito da história, quer
dizer gostou, mas ficou impressionado, com medo até. Ao mesmo tempo em que
também ficou indignado com o homem, um homem com medo de uma pomba, um fraco.
Ao amanhecer
Richard se levanta atordoado, um pesadelo havia visitado seu sono. Uma pomba
preta estava na porta de seu quarto com os olhos muito vermelhos, os pés com os
dedos todos cortados, sem bico e as penas todas ensanguentadas e o sangue
escorrendo em grande quantidade para debaixo de sua porta, escorrendo nos
rejuntes até o ralo da pia, como se fosse possível uma ave ter tanto sangue
assim. O pior foi que o sangue desviou o curso e subiu pelos pés de sua cama,
invadindo suas cobertas e chegando às suas narinas por onde entrava e depois
saía por sua boca e seus ouvidos e nesse instante ele acordou com o som do
despertador. Acordou suando resolvido em parar já a leitura de seu livro.
Procurou-o e o achou debaixo da cama e desesperado viu que havia um risco de
sangue na capa, bem no bico da pomba. Não sabia se já estava ali ou não, ou...
Não queria nem pensar. Jogou o livro dentro de seu armário. Abriu a porta e desmaiou.
Richard
acordou em um hospital e foi recobrando a memória. Matilde e Lino entram no
quarto, Matilde lhe entrega flores. Conversam e Richard fica sabendo que passou
horas desacordado e que quando o encontraram estava com a cabeça sangrando,
precisamente na boca e ouvidos, mas como não encontraram cortes o levaram para
fazer mais exames. Richard quase desmaiou de novo, lembrou-se do que viu na sua
porta e do pesadelo que teve. Matilde o segurou, sentiu que ficou branco
demais. Calma, Richard. Tudo já passou. Você já está medicado e não tem nada de
grave. Disseram que foi só o calor. Nossos dias estão cada vez mais quentes. A
temperatura tem subido exageradamente. Já até lhe liberaram, viemos buscá-lo. Eles
chegam à pensão. Richard corre para seu quarto, parece que vai enlouquecer. A
fobia já toma conta de seus pensamentos e atos. Reconhece que uma pomba pode
sim acabar com um homem. Abre o armário, pega o livro e desce com ele, vai até
o outro lado da rua e o atira dentro da lixeira. Mesmo se sentindo aliviado por
se livrar daquele aterrorizante livro, também se sente totalmente acabado e
amargurado por saber que seu sonho havia terminado bem ali, na lixeira, afinal,
estava colecionando os livros para abrir o seu próprio sebo. Queria ser dono de
um sebo com todos os livros por ele lido. Saberia dar informações sobre todos.
Quase chorava de tristeza, mas era melhor do que enlouquecer de vez. Não queria
mais saber de livros. Não queria mais saber de loja. Estava tão aturdido em
seus pensamentos e tão impressionado com seu acidente lá na pensão, que
atravessou a rua sem olhar. Um carro em alta velocidade lhe arremessou longe.
Caiu de bruços, rosto virado para direita, as pernas dobradas sobre si, a
camisa rasgada e um pé sem o sapato, inerte. olhar fixo, em pânico, estático. O
sangue escorrendo pelas narinas e pela boca. Em minutos, um homem chegou bem
perto e ficou apavorado com o olhar do morto, que era a mais pura expressão do
pânico, de muito medo, encarando a porta aberta do prédio. O homem ficou com a
imagem gravada na cabeça e quando estava deixando o lugar viu uma pomba preta
morta no canto da escada, toda ensanguentada e aleijada, bem na direção do
olhar apavorado do defunto. Fez o sinal do pai e saiu às pressas.
Comer Rezar e Amar
Equílibrio supremo: comer rezar e amar... A história de uma jovem em busca de seu equilíbrio, busca da verdade estruturada numa analogia, simbologia ao japa mala com seus 108 relatos.
Liz(Elizabeth M Gilbert)uma mulher com seus 36 anos busca encontrar a
verdade para sua existência. Já com oito anos de casada, com 31 anos de idade,
chorava por não querer ter filhos. Não queria ter filhos de jeito algum, até
orava quando menstruava. Mesmo amando
seu marido, com vida confortável sentia que não era para estar casada. Sua
busca em toda narrativa é encontrar o equilíbrio, o mesmo que ela compara com o
japa mala – utilizado no pescoço - são cordões de contas com 108 relatos que
representam o equilíbrio do Universo - utilizado no Asbram – comunidades que
promovem a evolução espiritual. Do japa mala originou-se no Ocidente: o terço.
Sempre orando e buscando explicações acaba se divorciando e apesar de
abrir mão de toda a parte financeira, seu marido não lhe dava a separação. E
foi nesse clima desconfortável que conheceu David, um ator e escritor, e
fugindo do conflito da separação foi morar com David. Conheceu David no
apartamento da guru indiana que convidou Liz a morar com um velho Xamã na Indonésia.
Passou todo o verão com David e em 2001 se separa e ainda acontece o acidente
de 11 de setembro. Sofreu bem mais, perdeu 15 quilos.
Vai para um apartamento morar sozinha. Em total desvalorização de si
chega a comprar flores todos os dias para ela mesma. Foi nesse repouso que ela
questiona mais ainda a vida. "Será que a vida tem que ser só de dever?
Devo ter prazer, mas não quero me desligar de Deus. Quero estar com Deus o
tempo todo."
Sua história está na viagem a esses três países em que se divide o
livro. Ela viaja para Itália (Prazer), Índia (devoção) e Indonésia (Equilíbrio
dos dois). Antes de iniciar sua viagem Liz vivia orando e pedindo a Deus o
caminho para sua paz. Vivia repetindo: "Por favor, me diga o que
fazer."
Passou pela Itália com o amigo Giovanni, parceiro de encontros para
praticar o Italiano. Um lugar que Liz classificou como de puro prazer. Seu
sonho era falar italiano.
Na Índia não consegue nem mesmo acordar de madrugada para as reflexões.
Sua tarefa era lavar o chão do Asbram, um lugar de peregrinação mais sagrado da
Terra. Foi uma época de muito sofrimento, de muitas tarefas que mal conseguia
desempenhar. Era fechada e sempre mal-humorada. Vivia sofrendo com o passado.
Só que nunca desistiu de seguir todos os passos do caminho do autoconhecimento.
Foram muitos meses de choros e conflitos fortes. Quanto mais sofria, sem
perceber, mais Liz Gilbert se aproximava do que ansiava. Ela não parava de
falar e seu aspecto era como se carregasse toneladas de tristeza. No Asbram
conheceu Richard um grande amigo que muito a ajudou. Richard chamava Liz de
Sacolão. Ele era o contrário dela. Sempre alegre e brincalhão. Ele foi embora e
ela ficou mais uns dois meses no Asbram. E a cada dia conseguia mais se
concentrar e relacionar-se com as demais pessoas do templo. Com o tempo e
muitas experiências interessantes evoluiu bastante e até conseguia acordar às
3h da madrugada e ficar em silencio por algumas horas. Esfregar o chão do
templo passou a ser maravilhoso. Foi quando a Seva – (sânscrito) prática
espiritual do serviço altruísta a convocou para ser a recepcionista do templo.
Como sempre Liz reclama e se perde novamente, mas com o tempo até consegue
administrar o templo, recebendo a todos e percebendo o quanto havia evoluído,
pois já sabia por tudo que os hóspedes iriam passar. Ela se tornou uma mulher
linda, alegre e comunicativa. Tinha a solução para todas as pessoas que ali
chegavam como ela chegou um dia: iradas, estressadas, fechadas e tristes, sem
qualquer paciência para nada.
Liz segue seu caminho. Agora o que mais sonhava era aperfeiçoar mais
ainda sua experiência. Nada melhor do que ir morar com o Xamã da Indonésia.
Parte para Bali - Abud - na expectativa de rever o velho Xamã de 9º geração com
quem fez uma reportagem e que falou que ela voltaria a Bali para morar com ele,
quando estava na Índia. A surpresa foi maior quando o encontrou e ele não a
reconheceu. Ela se entristeceu, mas com um pouco de esforço fez com que ele se
lembrasse dela. Ketut Liyer diz que ela estava muito mudada. Estava bonita e
sem tanta tristeza como ele a conheceu, por isso não a reconheceu. Liz visitava
Ketut todos os dias. E com o tempo foi fazendo um grande círculo de amigos.
Gostou tanto de Bali que resolveu comprar uma casa linda, isolada por lindos
canteiros floridos. Conheceu Wayan uma mulher sozinha que faz curas caseiras e
que ampara duas crianças, mas que está prestes a ser despejada de onde mora sem
ter para onde ir. Liz resolve pedir ajuda aos amigos via mails e consegue
ajudá-la a comprar um local para morar. Local que Wayan deixou disponível a
todos que contribuíram, visitarem. Foi na Indonésia também que Liz encontrou o
grande amor da vida dela. Felipe um homem maduro, compreensivo e divorciado que
faz Liz a mulher mais feliz. Como ela mesma diz: "Estou feliz, saudável,
equilibrada e na companhia de meu
namorado brasileiro."
ComCiência – Patrícia Piccinini - Arte
Por Rosângela Carvalho
PazCiência é o que
necessitamos para este mundo de desconstrução, de destruição, já que construir
é bem mais trabalhoso e há bem menos construtores mediante toda a história da
humanidade.
O que vemos nas obras da
artista Patrícia Piccinini é a apelação para chamar a atenção e nada mais. A
sociedade nestas obras é vista não pela consciência e ciência, mas pela falta
de limites nos ditames triunfais e conceituais. A sociedade está se metamorfoseando
em aberrações inúteis que só querem ser o centro de tudo. A ilimitada corrida
ao sucesso, ao criar o que não existe, vai além do natural e inundam a
sociedade de absurdos, que cada vez mais levam as pessoas a se distanciarem de Deus
e do Seu Natural Mundo. Até mesmo Voltaire dizia que se Deus não existisse
necessário seria inventá-lo; ou mesmo Pasteur que disse que um pouco de ciência
nos afasta de Deus, e muito ciência nos aproxima.
Assim, o que vejo nesta
exposição é um visual apelativo e absurdo que não passa disso, em contrapartida
com obras que acrescentam um mover e construir belezas e mudanças espirituais e
reais para o bem do mundo, como Vik Muniz, por exemplo, com o seu Lixo
Extraordinário.
Assusta-nos o que vem pela
frente, pois o mundo está nos apresentando como se fosse um grande mercado de
lixos nada extraordinários; e sim, um circo de horror, que longe de
Deus e toda sua criação arquiextraordinária e incopiável; não percebem que: “Todas
as coisas nos são lícitas, mas nem todas as coisas nos convêm. Todas as coisas nos
são lícitas, mas não nos deixaremos dominar por nenhuma”.
Espero que Ele volte e com
seus valores originais e naturais inunde de novo a Terra com simplicidade,
humildade e uma beleza e paz que excede a qualquer entendimento. Precisamos de intimidade
e amor para ver o poder e a PazCiência do Filho Jesus, o Cristo.
Clarice Lispector por Rosangela de
Carvalho
Diante do trono de Deus argumento-me como um soldado esquecido ao largo do continente, escalando uma curva retilínea aos meus sonhos, como se nunca fosse dar de cara com meu rosto. Onde foi que a humanidade errou, onde foi que o povo se esqueceu de tudo que aprendeu. Onde foi que trocaram amor pelo ódio mortal. Onde foi que nossa natureza maléfica despencou rio abaixo e nunca mais parou de jorrar seus jatos repentinos de ignorância.
Travaram todo sistema erguido no início de nossas
curvas. Deletaram as memórias preciosas que em outro tempo faziam juz ao
diâmetro do mundo. Infinito quarto que nem Kaspar Hauser poderia entender.
Olho ruas, casas, carros e nem vejo mais ser
humano, as ruas floridas pela alegria livre de viver permutou-se ao comércio
livre das grades e portões eletrônicos. A distância entre nós se ilimitou pela
desconfiança e pelas cordas invisíveis das delimitações de terrenos, de posse,
de vaidade, de salvaguarda.
Machuca-me olhar a história e ter que recorrer
aos artifícios dos filósofos antigos para adentrar a realidade equeva de meus
passos, que em nada mais condiz com o tempo em que se criou o esconde-esconde.
Não brincamos mais de ágora, nossas brincadeiras diluem-se, ás vezes, em
crimes. Qual mudança se formou em nosso cérebro? Qual mudança se formou em
nossa mente? Qual mudança se derreteu em nossas bocas molhadas de prepotência?
Não há mais realidades para se criar, apenas moldamo-nos feito argamassa de
construções cada vez mais vaidosas.
Alastra-se junto à vaidade o poder único de ser
sempre o melhor e maior. A vaidade caminha paralela à sensação desastrosa do
poder. O culto a sua personalização. A exposição viva de manequins desenhados
pelo consumismo e pela ideologia reinante. Modelos impostos pela aparência de
todo um jogo profundamente lançado fora de nós. Nós que nascemos para pertencer
a um sistema em perfeitas condições de vida, em todas as mínimas necessidades
de sobrevivência, estamos adentrando um desequilíbrio cada vez mais acentuado,
em todas as áreas do existir. Qual panambi que larga o casulo teremos voos
curtos de paisagens agradáveis.
Nítida é a janela dos olhares mundiais.
Avistam-se prédios e remédios para os
males do planeta. Continuamos marchando indo de encontro com o vento, perdendo
mais do que ganhando. Rostos iguais, corpos iguais, tradução equivalente aos
livros comerciais. Quando surgirá os nossos filósofos, serão eles aqueles que
desistem da vida. Aqueles que sem qualquer satisfação derrubam suas ascensões
em bocado de pó. Pó alienante que sufoca sonhos, que libera fantasias, que faz
prisioneiros, que faz vítimas, que faz a história ser cortada ao meio, ao início
e muitas vezes não há mais fim.
Trocam moedas por lacres de bebida, trocam lacres
de bebida por miniaturas, trocam olhares cada vez mais distantes, trocam-se em
corpos de um segundo ao outro. A cor dos cabelos são trocados em dias, as ideias
são trocadas de pensar em pensar.
Não precisa mais existir, vive quem quer. Muitos
colam cartazes nas ruas. Panfletos vivos caminham vendendo os sobejos da
vaidade. O respeito pela vida se entorna em um esgoto de egoísmo. Caneletas
levam os últimos pensamentos insanos. Como discutir o que vem pronto. Como olhar a margem e saber que
vazio está o centro do universo. Como segurar as mãos que não mais se importam.
O mundo já está pronto, pronto para sucumbir no buraco negro de nossa camada
egocêntrica.
Um dia afastei meus objetos da cadeira para dar
lugar a quem mais chegasse e pudesse se acomodar melhor, mas um lamento fechado
eclodiu em meu peito, quando dois pés sem qualquer noção de solidariedade e ou
respeito se colocaram exatamente na mesma cadeira, para que obtivesse além de já
estar sentado, um conforto a mais de sustentar suas pernas esticadas num vão
horroroso de um túnel sem qualquer atavio de educação. Pequenos gestos podem
falar exatamente a grandeza de uma alma. Um pequeno gesto pode expor tua vida.
Um pequeno gesto pode lhe transformar em qualquer gravura exposta. Uma pintura
movediça, rude, amarga ou talvez alegre, quem sabe até, uma pintura cubista. O
que importa os detalhes num contexto que caminha para o governo internacional.
Além do egoísmo humano em patamares menores, a doença do século caiu nas mãos
das nações e assim os Estados Unidos se garantem e começam a dominar o mundo de
país em país. Vai comprando um a um. A manipulação chegou ao nível maior. Maior
é o risco que se corre daqui para frente. Nenhuma guerra fria, apenas um modo patético
de saber que se é levado como os outros querem. Estamos em mãos do vizinho cada
vez mais sem saídas. Todas as portas e janelas abertas.
A ponte mostra duas margens, do seu centro
pode-se olhar retina direita ou esquerda, nossa visão esparge brilhos em
dualidades. As dicotomias são fundamentais para a sustentação dos sistemas, mas
a dualidade parece ser o sucumbir de nossas buscas no centro de uma vontade.
Morre-se a cada dia que nos espreme essa dual característica de nosso ser.
Morre-se mais um pouco cada noite que se deita em plano vertical. Que enterrem
os mortos na vertical para desocupar terras evasivas. Há quão grande é minha
angústia ao estar próxima da * A Hora da
Estrela.
* Clarice Lispetor publica em 1977 seu último livro: A Hora da Estrela. Faleceu no dia 9 de dezembro deste mesmo ano devido a um câncer no útero.
GERMINAL - ZOLA, ÉMILE - tradução de Francisco Bittencourt – São Paulo: abril cultural, 1981.
Germinal = mês de março.
Narrativa complexa e detalhista de toda uma família – Vicente Maheu, conhecido como boa morte, - trabalhou 45 anos no fundo da mina de Montsou e há cinco anos estava na Voreux - seu avô com 15 anos já trabalhava na primeira mina da Companhia – personaliza o povo na época da Revolução Francesa no apogeu da exploração de minas de carvão.
Detalhadamente com vivenciamos a vida dos
burgueses, dos chefes e empregados das minas de carvão. A riqueza literária dessa
obra são as descrições minuciosas que nos transportam para dentro das minas,
para dentro dos lares pobres dos mineiros e suas famílias raquíticas,
grosseiramente transformados em animais de extração de minério, tais quais os
cavalos levados para o interior das minas - esses nunca mais viam a luz do sol
– a não ser para acabarem de morrer. Há passagens que marcam pela precisão dos
detalhes.
O povo naquela província é descrito de
forma perfeita. As pessoas, as moradias, os costumes, o lares, o alcoolismo, a
fornicação, o desespero, as doenças e a greve que leva o povo ao pior patamar
de sua existência. A exploração e a vida dos burgueses em segundo plano faz
sobressair a vida dos empregados nas minas, transformando a narrativa num drama
jamais visto por aqueles criados bem longe desse período e dessa atividade.
Realça também a vida do moço nômade que
chega e quer ser um sindicalista intelectual – Etienne Lantier, 21 anos,
mineiro da Voreux – Companhia mineradora – e que acaba por morrer soterrado
após tanta luta inútil, tantos sonhos perdidos, tantas lutas sem sucesso. Um
rapaz sensível e ao mesmo tempo preocupado com seus discursos e conhecimentos
soltos, imprecisos, desconexos, autodidatas que se confundem com a realidade
totalmente adversa da teoria. Um sonhador que se perde em meio ao caos criado
por seu sonho de greve e conquista de melhores condições de vida para os
mineiros. O que consegue são mortes, desatinos, agressões, desespero, atos
animalescos e total descontrole da situação.
Alguns trechos da narrativa me lembraram O Cortiço
de Aluísio de Azevedo, quando os personagens representativos do povo estão em
seus barracos ou fornicando pelos arredores ou bebendo em tão escassos momentos
em que não estão na mina.
O lugar, o tempo, a neve, a noite, os dias,
a mina, a fome, a morte, as brigas, os esconderijos, o povoado, os personagens
marcantes, as situações de carthasis, a armadilha, a preparação para a destruição
total da mina, o soterramento dos mineiros; toda a narrativa descrita de uma
forma inesquecível e incomparável com quaisquer outras obras literárias em sua
totalidade.
Anos depois da leitura desta obra, li que autor
o Émile Zola com suas sistemáticas ações em
sua vida e costumes o fez morar nas minas para escrever este livro! E
real-mente ele escreve como se fosse parte da história, um espectador incrível!
Eugénia
Grandet – Honoré de Balzac – 1833
Uma narrativa simples, mas que retrata, fielmente, a escalada individualista de um plebeu que nada mais consegue ver e valorizar, além do brilho enriquecedor do ouro, das moedas que tilintam em seu ouvido, diariamente, até a sua morte. Assim é o pai de Eugénia, senhor Grandet, um ambicioso e inescrupuloso homem que coloca a ascensão social e financeira acima de sua própria família, seja sua filha única Eugénie ou sua esposa ou Nanom uma criada que participa dos meticulosos gestos mesquinhos de seu senhor.
Senhor Grandet um avaro homem que recebe uma trágica carta de
suicídio de seu irmão que estava em concordata e que não podendo mais criar o
filho Carlos, envia-o para que possa cuidar-lhe e isto, é um pesadelo para
alguém que pouco se importou com o desespero do irmão, mas que se preparou
rapidamente para despachar o sobrinho para as Índias.
Porém, Balzac consegue criar um clima totalmente
inovador na vida das três mulheres, levando até elas, um parisiense carregado
de novidades, um primo que nem suspeita que naquele momento seu pai já havia se
suicidado. Carlos traz tanta novidade e vaidade e roupas e acessórios decorados
em ouro jamais visto pelas damas. Foi uma parte da narrativa que mostra a
realidade oposta, totalmente morta diante das luzes de Paris.
Toda narrativa mostra que a maior preocupação de
Balzac é retratar, fotografar as mais fortes diferenças e comportamentos
sociais, além de priorizar o individualismo fanático, opressor, obcecado do
senhor Grandet pela sede de aumentar mais e mais suas riquezas, a ponto de
racionar de tudo, até mesmo na alimentação chegndo ao extremo de sempre contar
tudo que havia.
A trama, com a chegada de Carlos, quebra toda
monotonia e desperta em Eugénia sentimentos jamais acesos em seu coração, o que
a faz querer agradar o primo, sucedendo-se que esta passa a querer gastar, a
fazer pratos diferentes, a colocar uma vela no quarto do primo, enfim, mudanças
que senhor Grandet percebe e faz de tudo para enviar Carlos para as Índias.
Carlos ao saber da falência e suicídio do pai,
chora dias, causando nas senhoras verdadeira compaixão e amor, mais ainda
quando numa noite, cuidadosamente – seria a morte se seu pai descobrisse –
Eugénia invade o quarto de Carlos que estava adormecido e lê algumas cartas escritas
por Carlos pedindo a um amigo para vender seus pertences e pagar todas suas
dívidas, já que irá tentar a vida nas Índias. Eugénia, então, dá a Carlos as
moedas que seu pai lhe dá todo o ano, mas que sempre todo ano precisa tocar e
ver que ela nada gastou. Aliás, quando Grandet consegue fechar negócios
vantajosos com a ajuda de Cruchot (Uma das duas famílias que anseiam conseguir
casamento com Eugénia) sempre dá dinheiro para a esposa, que mais tarde sempre
pede de volta, quando precisa, na realidade mais é para saber que ela não
gastou.
Grandet é o personagem mais interessante, pelos
detalhes rigorosos e reais que Balzac emoldura em cada cena com cada tipo
personagem. Grandet é um anti-herói que não enxerga meios só avista o fim
desejado e sempre alcança com seu trabalho e também com sua astúcia e recursos,
ás vezes, nada honestos. Enriquece de uma forma tão individualista que nem a
família desconfia da riqueza que constrói.
É um romance realista que fotografa a sociedade
parisiense e a mesquinha forma de adentrar dentro dela através da riqueza e
títulos. Mostra tudo que se faz para obter um lugarzinho na sociedade. Até
mesmo Carlos, após anos nas Índias fica como Grandet, um avaro, um
individualista que busca riquezas e posição
social, levando-o a endurecer o coração e esquecer o amor
que jurou a Eugénia. E quando volta, casa com a filha da nobre família Des
Grassin apenas para ganhar um título e ter uma vida estável e reconhecida.
Enquanto isso, Eugénia perde pai e mãe e se torna
também uma mulher que busca aumentar a fortuna do pai – de modo menos rígido –
e quando fica sabendo do casamento do primo também se casa com o amigo do pai,
mas fica viúva rápido, descobrindo que seu marido não era um homem honesto como
pensava.
Enfim, é um romance simples, mas Balzac possui uma
descrição minuciosa e uma autenticidade da época, da
sociedade, do comportamento humano que faz enriquecer por demais cada página
lida. Mesmo com tão poucos personagens, sem um envolvimento maior do casal de
primos, sem tramas, Balzac nos faz viajar em dois mundos opostos, um mundo de
ambição e um mundo de ingenuidade. Um mundo de simplicidade e um de astúcia e
jogos de poder. Mostra o endurecimento da alma diante das ascensões materiais.
Mostra que a morte é realmente aquele final que chega para todos e que não há
como levar nada dos bens materiais – morte de Grandet que fica a segurar suas
moedas de ouro sem poder comprar a vida.
Woolf, Virginia, 1882-1940. Rumo
ao Farol, tradução de Luiza Lobo, Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha
de São Paulo, 2003.
Nos primeiros capítulos o recurso narrativo de Woolf me levou ao maravilhoso mundo de Wim Wenders em Der Himmel über Berlin – Asas do desejo – quando o filme acontece com narrativas do pensamento humano; em Rumo ao farol o que percebemos são vários mundos psicológicos individuais sendo explorados pelo pensar de cada um elaborando o pensamento do outro. Maravilhoso! A narrativa é toda percorrida pela imaginária fórmula dedutiva. Uma eterna incógnita dos vazantes pensamentos humanos em sua sensibilidade represada pela falta de diálogo e de coragem de se falar o que se pensa na maior parte de nossa vida. Até parece que Wim Wenders andou lendo esse livro.
Rumo ao
farol delata a profundidade de cada ser humano em seu mundo interior misterioso
e fechado onde os pensamentos digladiam sem qualquer barreira e sem qualquer
repreensão exterior. A liberdade de pensar tudo que não somos capazes de falar
e ou escrever, talvez apenas expressar em uma pintura, como fez Lily Biscoe
epilogando a narrativa com seus pensamentos e sua tela iniciada no primeiro
episódio. A história se divide em três relatos com impressionantes recursos
técnicos da linguagem e uma sensibilidade detalhista:
A janela: a parte mais densa.
Relata a vida da família Ramsey e os seus convidados em um monólogo
drasticamente exibindo o subconsciente dos protagonistas. A senhora Helena Ramsay
uma mulher 50 anos, linda, a perfeita esposa e mãe que consegue assegurar a paz
e harmonia entre a casa, a família e seus hóspedes- todos intelectuais e
artistas – Augustos Carmichael, Charles Tansley, Minta Doyle e Paul Rayley,
William Bankes. Tinham oito filhos críticos. Rose cuidava dos adornos; Prue a
mais linda que mãe; Andrew era ótima em matemática e gostava de pegar
caranguejos; Jasper atirava em passarinhos e recortava revistas; Roger e Nancy
criaturas selvagens que corriam pelo campo o dia inteiro; Cam a filha mais
nova, rebelde e violenta.
O tempo passa: um
armistício para os personagens iniciais serem substituídos pelos pensamentos da
faxineira de mais de 70 anos, a senhora McNab que irá ajeitar a casa para a
volta dos personagens – recordando em pensamentos todo o movimento que havia na
casa antes da grande guerra que acontecia. Episódio curto, mas com a técnica
inovadora e a aguçada sensibilidade caracterizada em todos os personagens
escolhidos pela autora, que enriquecem todos os detalhes da narrativa.
O farol: parte final com a volta
de apenas alguns hóspedes – amigos da família – o senhor Ramsey e três filhos.
Sua esposa ausente morreu repentinamente deixando toda a casa inacabada e
vazia. Os amigos soltos, dispersos em seus afazeres e pensamentos. O grande e
perfeito elo se perdera com a morte de Helena durante a guerra. Andrew também
morreu vítima da explosão de uma granada na França. Prue morrera decorrente de
problemas na sua primeira gravidez. Lily Briscoe, a pintora, volta à sua tela
inacabada e com seus pensamentos constrói e desconstrói o cenário, a casa da
Grã-Bretanha agora sem sua principal organizadora. O senhor Ramsay faz a viagem
dos sonhos de Cam e Jasper prometida pela mãe – quando eram crianças – de ir
Rumo ao farol.
Virginia
Woolf antecipou ideias do austríaco e judeu Sigismund Scholomo Freud
(1856/1939) criador da psicanálise ao invadir o subconsciente dos personagens
com todo o recurso linguístico e semântico para descrever analogias dos íntimos
pensamentos humanos e a profunda ligação com a natureza maravilhosa existente ao
redor da casa e do farol.
Os Manuscritos de Felipa –
Adélia Prado
Resenha Crítica Psicológica
Com o sucesso na carreira literária, Adélia Prado abandona o magistério após vinte e quatro anos de trabalho para se dedicar à alquimia do cotidiano com a sensibilidade de suas riquezas interiores, pelo ponto cego.
Formou-se em Filosofia.
Recebeu o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro com o lançamento: O
Coração Disparado. Suas obras foram levadas ao teatro com grande sucesso,
outras foram traduzidas para o Inglês e Espanhol. Publicou dezenas de livros,
tanto poemas como prosa: Oráculos de Maio; A faca no Peito; Solte os Cachorros;
Cacos para um vitral e outros.
Com um discurso indireto
livre o narrador-personagem utiliza um tempo anacrônico, temas dicotômicos e um
ambiente psicológico que dá ênfase às observações e às circunstâncias dessa “vidinha
besta”.
As personagens secundárias
aparecem e somem em prolepses que deixam o leitor em grandes expectativas. A
dicotomia do sagrado e do profano está presente nos quarenta capítulos
interligados a uma sexualidade reprimida com o excesso de religiosidade,
gerando uma poética Adeliana de prazer e pecado; de culpa e medo da morte.
Na visão Freudiana é como se
o superego, incessantemente, lutasse com o id da personagem Felipa que se
condenava e se absolvia num jogo de energias da sexualidade, aparentemente,
desconexa, mas que com sua fé católica aliada ao ego-lírico, retratam o
dia-a-dia com a beleza e a disciplina com que tudo e que todos fomos criados
por Deus.
É uma leitura velada que dá
acesso a uma viagem simples, anacrônica, despretensiosa e ao mesmo tempo, um “grudar”
em uma rede psicológica com inúmeros sonhos Freudianos e uma realidade
eternamente questionável. Sem qualquer tempo-espaço, sem qualquer obstáculo,
sem qualquer direção, apenas o delivrar de pensamentos, sonhos e recordações de
Felipa: uma mulher de meia idade, fóbica, religiosa, pecadora, crítica, usuária
de ansiolíticos; capaz de conciliar ao mesmo tempo enceradeira com microondas,
deitada em um divã, como se estivesse em uma sessão interminável, Freudiana de
Associação Livre.
Para quem questiona todos os
movimentos que nos encaram vida a fora, este romance tem um gosto de liberdade
e de profundidade, um gosto Adeliano de caracterizar e descrever os mínimos
gestos, as cenas mais simples com um gosto de existencialismo apreciável. É
como encarar de perto e por dentro todos os movimentos da vida nossa de cada
dia.
O
RETRATO DE DORIAN GRAY – Oscar Wilde
[...] Narrativa com preciosos e minuciosos detalhes de época, como decoração, moda, ambientes diversos. Centrada em rapaz cuja beleza é o único recurso de que precisa para existir, pois todos ao seu redor vivem em função disto, como uma prisão gostosa, de admirá-lo. Para o pintor a sua obra prima; para a atriz o príncipe encantador; para o amigo Henry uma cobaia de suas experiências. Dorian Gray o moço de beleza incomparável que irá se metamorfosear ao encontrar essas três pessoas em sua vida. Seu destino terá uma radical mudança. Um rompimento da doçura com a perigosa arma do narcisismo, da beleza com o submundo. [...]
A resenha é uma triste ferramenta literária que quebra um diamante para
simplesmente transformá-lo em pequenas pedras que se hospedarão em jóias
pequenas, grandes, bonitas, feias, redondas, valorizados ou não. Quebrei o
diamante não sei se a jóia ficou merecedora do diamante.
O protagonista Dorian Gray é um
rapaz lindo, jovem e com uma pureza instigadora que faz com que Basílio
Hallward, um pintor, faça desse jovem sua mais forte inspiração para criar sua
mais perfeita pintura. No intervalo que Dorian Gray visita Basílio para se
deixar pintar, Dorian é bombardeado com excessivos elogios que o transforma,
aos poucos. Basílio faz dele não só seu modelo como o envolve em um clima do
próprio deus da beleza.
Lord Henry, um amigo de Basílio,
também pertencente à corte inglesa em que os três estão envolvidos, faz questão
de conhecer o modelo de Basílio, após ouvir tantos excessivos elogios de um
pintor que nunca o vira exaltar tanto alguém. Lord Henry é uma personagem
arguta. Um amigo sarcástico e inteligente que se comporta sempre com críticas e
discursos inflamados com uma oratória carregada de ironia e cruéis observações
a respeito de tudo e todos. Um anti-herói que enriquece a narrativa e que faz
do protagonista um verdadeiro discípulo, que será capaz de se tornar bem mais
cruel que o próprio mestre.
Basílio até pede a Dorian que se
afaste de Lord Henry para não sofrer influências, mas é em vão tal pedido. Ao
terminar o quadro de Dorian, este não mais se interessa por frequentar a casa
de Basílio e passa a ser amigo presente de Lord Henry. Como o Lord Henry Harry
é um convidado polêmico e inteligente sempre recebe convites para todos os
encontros da elite inglesa. Muito perspicaz carrega com ele Dorian que é a
pessoa mais atraente e sedutora de todos os eventos sociais a que comparecem.
Como que acordado de sua
internalizada beleza, Dorian sofre fortes influências por ser tão idolatrado
por Basílio e depois por Lord Henry e acaba se tornando um ser narciso. Era
consultado por todos para dar opinião sobre tudo que envolvia beleza e charme,
desde uma roupa à decoração de um ambiente. Dorian poderia viver só de sua
beleza. Todos o idolatravam, além disso, tinha uma boa posição social.
Despertado para sua beleza
ímpar, Dorian olhando seu quadro pintado por Basílio inicia um processo de
obsessão por sua aparência jovem e linda; pelo poder da beleza passa a
influenciar e seduzir a todos. Nesse frenesi Dorian acaba fazendo um pacto, sem
perceber, com a obra inusitada de Basílio. O quadro perfeito de Basílio. Dorian
não mais envelhece e nem mesmo após 18 anos de vida, enquanto todos vão
envelhecendo e querendo saber o segredo - que está no quadro pintado - de
Dorian por Basílio Hallward.
Com tanto poder e também muitos
conflitos Dorian chega a matar o próprio pintor em um crime perfeito, nunca
descoberto. Dorian faz muitas vítimas de sua beleza, alguns até comentem
suicídio.
No final, Dorian percebe que não
pode mais viver com tantos desatinos. Quer ser um homem bom, totalmente
arrependido de tudo que fez, mas não percebe que destruir o quadro que tanto
escondeu de todos e que envelhecia em seu lugar, jamais lhe daria uma nova
chance de viver.
É importante também olhar as
inúmeras descrições históricas e científicas que enriquecem a narrativa, que
também é um recurso delicado que pode desanimar alguns leitores. São descrições
que perambulam por vários diálogos e filosofias de vida.
Lord Henry também enriquece
muito a narrativa. Ele consegue ver a vida por um ângulo muito interessante em
todos os sentidos e o mais lindo é a profundeza da alma humana que a narrativa
explora. A nossa dicotomia do existir. Assim, com tantos recursos discretos e
perfeitos, a narrativa é bem diferente. Uma mistura na medida perfeita de
sabedoria existencial, drama e terror que NÃO nos deixa limitar sua
classificação literária, a qual vai além do comum. Só podemos classificá-lo
segundo a própria teoria da literatura: um
verdadeiro clássico de leitura obrigatória.
No final da leitura essa
pergunta retirada do próprio livro é indispensável: Qual o proveito de um homem que ganha o mundo inteiro, mas perde a sua
própria alma?
A REPÚBLICA DOS SONHOS -
NÉLIDA PINÕN
Verdadeiro arquivo da História do Brasil... de cara para aquele sistema de montanhas, acreditava ver o desfilar a crucial história da organização brasileira. Até chegando a ouvir os lamentos e brados dos bandeirantes, dos contrabandistas, dos cristãos novos, dos arrecadadores do ouro, avançando oeste adentro em vacilantes carroças e nos lombos dos animais. Uma humanidade pronta a servir de base para a formação de um povo claudicante.
Com discurso direto e outras
livre indireto a narrativa nos carrega em ávidas leituras sem saber ao certo
quem fala, mas sem se apavorar bem no final de cada capítulo conseguimos identificar
cada detalhe que a narrativa mais do que rica nos passa.
Valoriza-se tanto cada
personagem que fica difícil identificar o personagem principal, como se os
secundários fossem apenas as classes, grupos, nunca a família de Madruga.
Madruga um imigrante
É melhor dizer que dentro da
história da ditadura brasileira e da história do Brasil, há uma história
maravilhosa de Madruga um senhor que chega aos seus oitenta anos e que desde o
início do livro vê a esposa no leito esperando a morte. Com vários filhos, cada
qual com sua personalidade, cada qual um riquíssimo personagem que encanta a
cada página virada. É uma narrativa deliciosa e historicamente fascinante. Foi
o melhor jeito que conheci a história do Brasil com seus imigrantes e suas
terras tão longe de nós, se aventurando no Brasil.
No Rio de Janeiro-Leblon a
obra inicia com a esposa morrendo. Madruga sai da Galícia aos 13 anos com a
ajuda do tio Justo, na época era homem de verdade aquele que conseguisse sair
de um lugar gasto como Galícia e fosse para a terra descoberta, linda e nova, o
Brasil – das lendas de Galícia – que
se fala em toda a narrativa, mas não se
contou nenhuma delas.
Pai Ceferino e mãe Urcesina
difícil deixá-los, mas Madruga consegue ficar no Brasil. Um amigo de 30 anos –
Venâncio que muito amava Eulália – esposa de Madruga. Uma neta que parece a protagonista
em algumas partes da narrativa ficou exilada em Paris por dois anos. A única
que voltou à terra do pai – com 10 anos de idade – a Espanha.
Seus filhos: Esperança a
filha que morreu ao chegar no Brasil na viagem de Espanha para o Brasil. Tobias último filho, o mais carinhoso com
Eulália – pertencia à UNE - defendia as causas
perdidas da ditadura, advogado dos pobres, envolvia-se com os casos das mães
que perdiam os filhos nos escombros da maldade da prisão, não havia justiça no
Brasil; Miguel casado com Silvia Antônia invejosa de Esperança (segunda – a
primeira faleceu ao chegar no Brasil) uma mulher que gerava tensões e fantasias
excessivas na família; Bento se casou com a filha de Juscelino Kubstcheck –
escolhida a dedo – já que Bento era o filho que tinha complexo de inferioridade
na família e assim agia para sobressair em tudo nos negócios do pai, era o mais
ajuizado. Tinha Luis Filho – marido de Antônia – um almofadinha que vivia à
custa de Madruga.
É uma narrativa histórica-psicológica
com riquezas impressionantes, tamanha a beleza com que se traduz tão
perfeitamente um momento histórico, um romance e uma realidade na qual vivemos
e não poderíamos descrevê-la com tanta exatidão como faz a autora. São
prolepses – passado e presente – e a minuciosa capacidade de se descrever até
mesmo o som da fala de Tobias pelos lábios de Eulália, belo demais. Fica
dificílimo descrever a metalinguagem com tanta perfeição em detalhar cada
momento da obra num todo.
Enquanto Madruga enriquecia e
desvendava os caminhos práticos da vida, Venâncio – seu braço direito e pode-se
dizer também esquerdo – ficou com todos os sonhos, lendas e sensibilidade de
Madruga e não suportou a realidade e nem a exploração de tantos que assaltavam
países como o Brasil, sem qualquer obstáculo. Venâncio perdeu toda ilusão e foi
padrinho de Tobias, o qual herdou do padrinho todo esse lado sensível, pois
eram muito amigos. Foram 30 anos de amizade entre Venâncio e Madruga.
Os capítulos nos impulsionam a querer ver o final sem nem mesmo importar com o equilíbrio da narrativa, sem qualquer clímax, apenas a morte de Esperança que só foi explicada na página 300, mas com muitos capítulos que começam com personagens diferentes em lugares mais diferentes ainda, porém todos interligados ao ponto inicial da narrativa, a dor de Madruga e dos filhos com a mãe no leito de morte. É como uma viagem sem fim, uma viagem deliciosa de se fazer. A riqueza histórica-psicológica faz-sina. Parece que na velhice – o cansado jovem conquistador – passa a narrativa para as mãos de sua neta querida. A descrição da família ao olhar um quadro na parede foi um recurso apreciável demais, rico demais. Como é difícil resenhar um livro com tantas e tantas riquezas.
Historicamente há um resumo
interessante: o rio de janeiro se diverte, é descansado; Brasília é abusiva, nada
representa; São Paulo não para, progredir é seu lema; Belo Horizonte é calma,
acha-se a melhor cidade do país.
A República dos Sonhos é uma
obra-prima com uma precisão de fatos históricos, literários e psicológicos, que
só como Garcia Marques e seus Cem anos de Solidão podemos analogar.
Resumo
do livro: O Mundo de Sofia – parte filosófica
Atenas
centro cultural do mundo grego.
SOFISTAS:
Grupo de mestres e filósofos (itinerantes) vindos de colônias gregas. Ensinam
aos cidadãos adeptos do Ceticismo.
AGNÓSTICOS
: Aquele que não é capaz de afirmar categoricamente se existe ou não um Deus.
1- SÓCRATES:
71 anos – 470/399AC – Atenas
Seu
discípulo Platão.
Ironia
Socrática: Fingir que não sabe.
Condenado
pelo júri de 50 pessoas em 399AC para corromper juventude, não reconhecer a
existência de deuses.
Bebeu
um cálice de cicuta. Era só sair de Atenas e estaria livre; preferiu morreu.
Não
deixou nada escrito por ele, assim como Jesus Cristo.
Proposições
Socráticas:
1-
Como um padeiro consegue assar 50 bolos exatamente iguais?
2-
Porque todos os cavalos são iguais?
3-
o homem possui uma alma imortal?
4-
homens e mulheres são diferentemente racionais?
2- PLATÃO:
80 ANOS – 427/347AC ( Tinha 29 quando
Sócrates tomou cicuta)
Cavalo
morre, mas a forma dele é sempre cavalo, sempre existe.
Razão
eterna e universal: 2 X 2 = 4
Dividiu
mundo dos sentidos ( uso cinco sentidos) e o mundo das idéias ( uso da razão)
Homem
ser dual. Alma (razão, vontade, desejo) imortal morada da razão. Alma já
existia. Volta sem saber nada, mas com lembranças.
Caverna
parábola/mito
Divisão
do corpo: cabeça=razão
peito=vontade
baixo-ventre=prazer e desejo
Estados-governantes-sentinelas-trabalhadores.
Virtude-sabedoria-coragem-temperança.
A
favor de mulheres no governo, criação de defesa para infância – jardim de
infância/semi-internatos.
3- ARISTÓTELES
62 ANOS – 384/322AC (Filósofo e cientista)
Discípulo
há 20 anos de Platão. Um organizador, um homem extremamente meticuloso que
queria ordem nos conceitos dos homens. Primeiro biólogo da Europa/natural da
Macedônia.
Processos
naturais. Inventor da brincadeira de adivinhar o que é com gestos. Pessoas
gesticulam e um tenta adivinhar. Esconde Esconde foi Platão. Demócrito peças do
lego.
Fundou
a ciência da lógica. Seres inanimados e criaturas vivas.
Mulher
= homem incompleto. Passiva/receptora e o homem ativo e produtivo.
Só
através do equilíbrio e da moderação é que podemos nos tornar pessoas felizes
ou harmônicas.
HELENISMO:
Alexandre Magno 356/323AC ( uma centelha do fogo)
Rei
da Macedônia. Cultura grega predomina nos 3 grandes reinos helênicos:
Macedônia, Síria e o Egito.
Alexandria
(Egito) Ponto de encontro entre Oriente e Ocidente – Metrópole da ciência.
CORRENTES FILOSÓFICAS
(As três primeiras correntes ponto de partida Sócrates)
1-
Filosofia CÍNICA fundada Atenas por Antístenes, discípulo de Sócrates.
Felicidade é libertar-se das coisas efêmeras e casuais.
Diógenes,
seu seguidor, sua felicidade era viver dentro de um barril com um cajado, uma
túnica e pão. Não se atormentava com os sofrimentos alheios, com doenças,
mortes e outros.
2-
Filosofia – Os ESTÓICOS – Atenas fundador Zenão ( Ilha de Chipre) Reunião de
ouvintes debaixo dos pórticos. Ao lado de Sócrates contra os SOFISTAS (direito
natural) Marco Aurélio/Sêneca foram estóicos – Nada acontece por acaso. Não
adianta lamentar o destino. Tranqüilidade estóica.
3-
OS EPICURISTAS (341/270AC) Filosofia divulgada num jardim. Não falava
política/sociedade. Viva a reclusão. Pessoas que viviam só do prazer,
designação moderna/atual. A palavra de ordem deles era viver o momento.
4-
NEOPLATONISMO – Inspirada em Platão por Plotino – 205/270
MÍSTICA.
Encontro com deus pessoal.
A- MÍSTICA OCIDENTAL:
JUDAÍSMO/CRISTIANISMO/ISLAMISMO
B- MÍSTICA ORIENTAL:
HINDUÍSMO/BUDISMO/RELIGIÃO CHINESA (Fusão total com Deus. (espírito cósmico)
JESUS CRISTO/CRISTIANISMO - JUDEU
– CÍRCULO CULTURAL SEMITA
CÍRCULO
CULTURAL EUROPEU – VEDAS/ÍNDIA – OS DOIS CÍRCULOS SÃO RAÍZES DA CIVILIZAÇÃO
EUROPÉIA.
JERUSALÉM
ATÉ HOJE CENTRO RELIGIOSO
Judeus=sinagogas
Cristãos=igrejas
Mulçumanos=mesquitas
Grécia
e Rússia proíbem imagens referentes a deus. Não devem fabricar pra si imagens
de deus.
Israel/Davi/Jesus/Paulo/
quatro séculos depois todo o mundo grego-romano estava cristianizado sob
domínio de Constantino Imperador.
Idade
antiga duração 1000anos – Idade Média 1000anos
Quem,
de 3 milênios, não é capaz de se dar conta, vive na ignorância, na sombra, a
mercê dos dias, do tempo.
O ENFERMEIRO – Machado de Assis
EM QUADRINHOS
DISCURSO:
- Protagonista
– Narrador
- Discurso
Direto
CRÍTICA:
Adaptação para releitura dos clássicos inédita
e interessante. Uma tentativa de levar aos jovens à leitura de uma maneira
menos prolixa.
Proposta interessante, mas que não deverá ter
muita receptividade nesse público, afinal, quadrinhos pertence a uma geração
mais antiga, um público antigo, na época dos super heróis.
Os jovens atuais estão em redes virtuais
informatizadas e interativas que deliberam até a criação de suas próprias
histórias e montagens, algo que vai muito além dessa proposta.
É como fazer os jovens regredirem duas vezes,
uma sendo obrigados sempre a lerem obras
tão antigas e desgastadas – e a outra é
tentar resgatar o modelo “ quadrinhos”.
Melhor deixar isso com Maurício de Sousa.
Afinal, se é um clássico, que leiam-o em sua
íntegra no modo como surgiu, os leitores precisam saber e participar das partes
mais entediantes da literatura, comofaz parte da vida enfretarmos situações
também entediantes seja em nossa vida profissional, pessoal e outras...Até
mesmo sentimental. Os jovens precisam se adaptarem também em slgo, ao invés de
se buscar sempre adaptar as situações
para eles em recursos cada vez mais confortáveis e sem obstáculos.
Gostaria, apenas de saber o ano em que esse
quadrinho foi lançado, ficou difícil
criticar sem saber a época que tentaram esse tipo de releitura, se foi
para época atual, é uma regressão cultural.
Analisando a obra, trata-se de Machado de
Assis, seja pela temática morte, seja pela narração em primeira pessoa, seja
pelas sugestões e não revelação do desfecho,
seja pela narração de seres humanos que nem
são totalmente ruins ou bons, seja pela crítica e ironia quando delata a sociedade e suas vicissitudes ou até
mesmo pela nítida fotografia de Machado
nos quadrinhos que consegue utilizar-se de um enfermeiro para narrar de si mesmo!
É muito interessante, de fácil leitura, mas já
no início há uma passagem não muito clara- quadrinho 10: “ ... olhe, eu podia
mesmo contar-lhe a minha vida inteira, em que há outras coisas
interessantes...mas para isso era preciso tempo, ânimo e papel, e eu só tenho
papel...” ( aqui o enfermeiro olha para
um maço de folhas em cima da mesa)
Quadrimho 13 : “... adeus, meu caro senhor.
Leia isto e queira-me bem...” ( aqui o mesmo maço de folhas está escrito-
mágica? Se ele afirmou só ter papel,
como escreveu? E Tão rápido? Enfim, é muito interessante, mas inadaptável para
nossa época.