GERMINAL - ZOLA, ÉMILE - tradução de Francisco Bittencourt – São Paulo: abril cultural, 1981.

GERMINAL - ZOLA, ÉMILE - tradução de Francisco Bittencourt – São Paulo: abril cultural, 1981.

Germinal = mês de março.

Narrativa complexa e detalhista de toda uma família – Vicente Maheu, conhecido como boa morte, - trabalhou 45 anos no fundo da mina de Montsou e há cinco anos estava na Voreux - seu avô com 15 anos já trabalhava na primeira mina da Companhia – personaliza o povo na época da Revolução Francesa no apogeu da exploração de minas de carvão.

Detalhadamente com vivenciamos a vida dos burgueses, dos chefes e empregados das minas de carvão. A riqueza literária dessa obra são as descrições minuciosas que nos transportam para dentro das minas, para dentro dos lares pobres dos mineiros e suas famílias raquíticas, grosseiramente transformados em animais de extração de minério, tais quais os cavalos levados para o interior das minas - esses nunca mais viam a luz do sol – a não ser para acabarem de morrer. Há passagens que marcam pela precisão dos detalhes.

O povo naquela província é descrito de forma perfeita. As pessoas, as moradias, os costumes, o lares, o alcoolismo, a fornicação, o desespero, as doenças e a greve que leva o povo ao pior patamar de sua existência. A exploração e a vida dos burgueses em segundo plano faz sobressair a vida dos empregados nas minas, transformando a narrativa num drama jamais visto por aqueles criados bem longe desse período e dessa atividade.

Realça também a vida do moço nômade que chega e quer ser um sindicalista intelectual – Etienne Lantier, 21 anos, mineiro da Voreux – Companhia mineradora – e que acaba por morrer soterrado após tanta luta inútil, tantos sonhos perdidos, tantas lutas sem sucesso. Um rapaz sensível e ao mesmo tempo preocupado com seus discursos e conhecimentos soltos, imprecisos, desconexos, autodidatas que se confundem com a realidade totalmente adversa da teoria. Um sonhador que se perde em meio ao caos criado por seu sonho de greve e conquista de melhores condições de vida para os mineiros. O que consegue são mortes, desatinos, agressões, desespero, atos animalescos e total descontrole da situação.

Alguns trechos da narrativa me lembraram O Cortiço de Aluísio de Azevedo, quando os personagens representativos do povo estão em seus barracos ou fornicando pelos arredores ou bebendo em tão escassos momentos em que não estão na mina.

O lugar, o tempo, a neve, a noite, os dias, a mina, a fome, a morte, as brigas, os esconderijos, o povoado, os personagens marcantes, as situações de carthasis, a armadilha, a preparação para a destruição total da mina, o soterramento dos mineiros; toda a narrativa descrita de uma forma inesquecível e incomparável com quaisquer outras obras literárias em sua totalidade.

Anos depois da leitura desta obra, li que autor o Émile Zola com suas sistemáticas ações em sua vida e costumes o fez morar nas minas para escrever este livro! E real-mente ele escreve como se fosse parte da história, um espectador incrível!

 


Eugénia Grandet – Honoré de Balzac – 1833

 

Uma narrativa simples, mas que retrata, fielmente, a escalada individualista de um plebeu que nada mais consegue ver e valorizar, além do brilho enriquecedor do ouro, das moedas que tilintam em seu ouvido, diariamente, até a sua morte. Assim é o pai de Eugénia, senhor Grandet, um ambicioso e inescrupuloso homem que coloca a ascensão social e financeira acima de sua própria família, seja sua filha única Eugénie ou sua esposa ou Nanom uma criada que participa dos meticulosos gestos mesquinhos de seu senhor.

Senhor Grandet  um avaro homem que recebe uma trágica carta de suicídio de seu irmão que estava em concordata e que não podendo mais criar o filho Carlos, envia-o para que possa cuidar-lhe e isto, é um pesadelo para alguém que pouco se importou com o desespero do irmão, mas que se preparou rapidamente para despachar o sobrinho para as Índias.

Porém, Balzac consegue criar um clima totalmente inovador na vida das três mulheres, levando até elas, um parisiense carregado de novidades, um primo que nem suspeita que naquele momento seu pai já havia se suicidado. Carlos traz tanta novidade e vaidade e roupas e acessórios decorados em ouro jamais visto pelas damas. Foi uma parte da narrativa que mostra a realidade oposta, totalmente morta diante das luzes de Paris.

Toda narrativa mostra que a maior preocupação de Balzac é retratar, fotografar as mais fortes diferenças e comportamentos sociais, além de priorizar o individualismo fanático, opressor, obcecado do senhor Grandet pela sede de aumentar mais e mais suas riquezas, a ponto de racionar de tudo, até mesmo na alimentação chegndo ao extremo de sempre contar tudo que havia.

A trama, com a chegada de Carlos, quebra toda monotonia e desperta em Eugénia sentimentos jamais acesos em seu coração, o que a faz querer agradar o primo, sucedendo-se que esta passa a querer gastar, a fazer pratos diferentes, a colocar uma vela no quarto do primo, enfim, mudanças que senhor Grandet percebe e faz de tudo para enviar Carlos para as Índias.

Carlos ao saber da falência e suicídio do pai, chora dias, causando nas senhoras verdadeira compaixão e amor, mais ainda quando numa noite, cuidadosamente – seria a morte se seu pai descobrisse – Eugénia invade o quarto de Carlos que estava adormecido e lê algumas cartas escritas por Carlos pedindo a um amigo para vender seus pertences e pagar todas suas dívidas, já que irá tentar a vida nas Índias. Eugénia, então, dá a Carlos as moedas que seu pai lhe dá todo o ano, mas que sempre todo ano precisa tocar e ver que ela nada gastou. Aliás, quando Grandet consegue fechar negócios vantajosos com a ajuda de Cruchot (Uma das duas famílias que anseiam conseguir casamento com Eugénia) sempre dá dinheiro para a esposa, que mais tarde sempre pede de volta, quando precisa, na realidade mais é para saber que ela não gastou.

Grandet é o personagem mais interessante, pelos detalhes rigorosos e reais que Balzac emoldura em cada cena com cada tipo personagem. Grandet é um anti-herói que não enxerga meios só avista o fim desejado e sempre alcança com seu trabalho e também com sua astúcia e recursos, ás vezes, nada honestos. Enriquece de uma forma tão individualista que nem a família desconfia da riqueza que constrói.

É um romance realista que fotografa a sociedade parisiense e a mesquinha forma de adentrar dentro dela através da riqueza e títulos. Mostra tudo que se faz para obter um lugarzinho na sociedade. Até mesmo Carlos, após anos nas Índias fica como Grandet, um avaro, um individualista que busca riquezas e posição social,  levando-o  a endurecer o coração e esquecer o amor que jurou a Eugénia. E quando volta, casa com a filha da nobre família Des Grassin apenas para ganhar um título e ter uma vida estável e reconhecida.

Enquanto isso, Eugénia perde pai e mãe e se torna também uma mulher que busca aumentar a fortuna do pai – de modo menos rígido – e quando fica sabendo do casamento do primo também se casa com o amigo do pai, mas fica viúva rápido, descobrindo que seu marido não era um homem honesto como pensava.

Enfim, é um romance simples, mas Balzac possui uma descrição minuciosa e uma  autenticidade  da época, da sociedade, do comportamento humano que faz enriquecer por demais cada página lida. Mesmo com tão poucos personagens, sem um envolvimento maior do casal de primos, sem tramas, Balzac nos faz viajar em dois mundos opostos, um mundo de ambição e um mundo de ingenuidade. Um mundo de simplicidade e um de astúcia e jogos de poder. Mostra o endurecimento da alma diante das ascensões materiais. Mostra que a morte é realmente aquele final que chega para todos e que não há como levar nada dos bens materiais – morte de Grandet que fica a segurar suas moedas de ouro sem poder comprar a vida.

 


Woolf, Virginia, 1882-1940. Rumo ao Farol, tradução de Luiza Lobo, Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003.

        Nos primeiros capítulos o recurso narrativo de Woolf me levou ao maravilhoso mundo de Wim Wenders em Der Himmel über Berlin – Asas do desejo – quando o filme acontece com narrativas do pensamento humano; em Rumo ao farol o que percebemos são vários mundos psicológicos individuais sendo explorados pelo pensar de cada um elaborando o pensamento do outro. Maravilhoso! A narrativa é toda percorrida pela imaginária fórmula dedutiva. Uma eterna incógnita dos vazantes pensamentos humanos em sua sensibilidade represada pela falta de diálogo e de coragem de se falar o que se pensa na maior parte de nossa vida. Até parece que Wim Wenders andou lendo esse livro. 

Rumo ao farol delata a profundidade de cada ser humano em seu mundo interior misterioso e fechado onde os pensamentos digladiam sem qualquer barreira e sem qualquer repreensão exterior. A liberdade de pensar tudo que não somos capazes de falar e ou escrever, talvez apenas expressar em uma pintura, como fez Lily Biscoe epilogando a narrativa com seus pensamentos e sua tela iniciada no primeiro episódio. A história se divide em três relatos com impressionantes recursos técnicos da linguagem e uma sensibilidade detalhista:

A janela: a parte mais densa. Relata a vida da família Ramsey e os seus convidados em um monólogo drasticamente exibindo o subconsciente dos protagonistas. A senhora Helena Ramsay uma mulher 50 anos, linda, a perfeita esposa e mãe que consegue assegurar a paz e harmonia entre a casa, a família e seus hóspedes- todos intelectuais e artistas – Augustos Carmichael, Charles Tansley, Minta Doyle e Paul Rayley, William Bankes. Tinham oito filhos críticos. Rose cuidava dos adornos; Prue a mais linda que mãe; Andrew era ótima em matemática e gostava de pegar caranguejos; Jasper atirava em passarinhos e recortava revistas; Roger e Nancy criaturas selvagens que corriam pelo campo o dia inteiro; Cam a filha mais nova, rebelde e violenta.

O tempo passa: um armistício para os personagens iniciais serem substituídos pelos pensamentos da faxineira de mais de 70 anos, a senhora McNab que irá ajeitar a casa para a volta dos personagens – recordando em pensamentos todo o movimento que havia na casa antes da grande guerra que acontecia. Episódio curto, mas com a técnica inovadora e a aguçada sensibilidade caracterizada em todos os personagens escolhidos pela autora, que enriquecem todos os detalhes da narrativa.

O farol: parte final com a volta de apenas alguns hóspedes – amigos da família – o senhor Ramsey e três filhos. Sua esposa ausente morreu repentinamente deixando toda a casa inacabada e vazia. Os amigos soltos, dispersos em seus afazeres e pensamentos. O grande e perfeito elo se perdera com a morte de Helena durante a guerra. Andrew também morreu vítima da explosão de uma granada na França. Prue morrera decorrente de problemas na sua primeira gravidez. Lily Briscoe, a pintora, volta à sua tela inacabada e com seus pensamentos constrói e desconstrói o cenário, a casa da Grã-Bretanha agora sem sua principal organizadora. O senhor Ramsay faz a viagem dos sonhos de Cam e Jasper prometida pela mãe – quando eram crianças – de ir Rumo ao farol.

Virginia Woolf antecipou ideias do austríaco e judeu Sigismund Scholomo Freud (1856/1939) criador da psicanálise ao invadir o subconsciente dos personagens com todo o recurso linguístico e semântico para descrever analogias dos íntimos pensamentos humanos e a profunda ligação com a natureza maravilhosa existente ao redor da casa e do farol.



Os Manuscritos de Felipa – Adélia Prado

Resenha Crítica Psicológica


Com o sucesso na carreira literária, Adélia Prado abandona o magistério após vinte e quatro anos de trabalho para se dedicar à alquimia do cotidiano com a sensibilidade de suas riquezas interiores, pelo ponto cego.

Formou-se em Filosofia. Recebeu o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro com o lançamento: O Coração Disparado. Suas obras foram levadas ao teatro com grande sucesso, outras foram traduzidas para o Inglês e Espanhol. Publicou dezenas de livros, tanto poemas como prosa: Oráculos de Maio; A faca no Peito; Solte os Cachorros; Cacos para um vitral e outros.

Com um discurso indireto livre o narrador-personagem utiliza um tempo anacrônico, temas dicotômicos e um ambiente psicológico que dá ênfase às observações e às circunstâncias dessa “vidinha besta”.

As personagens secundárias aparecem e somem em prolepses que deixam o leitor em grandes expectativas. A dicotomia do sagrado e do profano está presente nos quarenta capítulos interligados a uma sexualidade reprimida com o excesso de religiosidade, gerando uma poética Adeliana de prazer e pecado; de culpa e medo da morte.

Na visão Freudiana é como se o superego, incessantemente, lutasse com o id da personagem Felipa que se condenava e se absolvia num jogo de energias da sexualidade, aparentemente, desconexa, mas que com sua fé católica aliada ao ego-lírico, retratam o dia-a-dia com a beleza e a disciplina com que tudo e que todos fomos criados por Deus.

É uma leitura velada que dá acesso a uma viagem simples, anacrônica, despretensiosa e ao mesmo tempo, um “grudar” em uma rede psicológica com inúmeros sonhos Freudianos e uma realidade eternamente questionável. Sem qualquer tempo-espaço, sem qualquer obstáculo, sem qualquer direção, apenas o delivrar de pensamentos, sonhos e recordações de Felipa: uma mulher de meia idade, fóbica, religiosa, pecadora, crítica, usuária de ansiolíticos; capaz de conciliar ao mesmo tempo enceradeira com microondas, deitada em um divã, como se estivesse em uma sessão interminável, Freudiana de Associação Livre.

Para quem questiona todos os movimentos que nos encaram vida a fora, este romance tem um gosto de liberdade e de profundidade, um gosto Adeliano de caracterizar e descrever os mínimos gestos, as cenas mais simples com um gosto de existencialismo apreciável. É como encarar de perto e por dentro todos os movimentos da vida nossa de cada dia.



O RETRATO DE DORIAN GRAY – Oscar Wilde


[...] Narrativa com preciosos e minuciosos detalhes de época, como decoração, moda, ambientes diversos. Centrada em rapaz cuja beleza é o único recurso de que precisa para existir, pois todos ao seu redor vivem em função disto, como uma prisão gostosa, de admirá-lo. Para o pintor a sua obra prima; para a atriz o príncipe encantador; para o amigo Henry uma cobaia de suas experiências. Dorian Gray o moço de beleza incomparável que irá se metamorfosear ao encontrar essas três pessoas em sua vida. Seu destino terá uma radical mudança. Um rompimento da doçura com a perigosa arma do narcisismo, da beleza com o submundo. [...]

 

A resenha é uma triste ferramenta literária que quebra um diamante para simplesmente transformá-lo em pequenas pedras que se hospedarão em jóias pequenas, grandes, bonitas, feias, redondas, valorizados ou não. Quebrei o diamante não sei se a jóia ficou merecedora do diamante.

 

O protagonista Dorian Gray é um rapaz lindo, jovem e com uma pureza instigadora que faz com que Basílio Hallward, um pintor, faça desse jovem sua mais forte inspiração para criar sua mais perfeita pintura. No intervalo que Dorian Gray visita Basílio para se deixar pintar, Dorian é bombardeado com excessivos elogios que o transforma, aos poucos. Basílio faz dele não só seu modelo como o envolve em um clima do próprio deus da beleza.

Lord Henry, um amigo de Basílio, também pertencente à corte inglesa em que os três estão envolvidos, faz questão de conhecer o modelo de Basílio, após ouvir tantos excessivos elogios de um pintor que nunca o vira exaltar tanto alguém. Lord Henry é uma personagem arguta. Um amigo sarcástico e inteligente que se comporta sempre com críticas e discursos inflamados com uma oratória carregada de ironia e cruéis observações a respeito de tudo e todos. Um anti-herói que enriquece a narrativa e que faz do protagonista um verdadeiro discípulo, que será capaz de se tornar bem mais cruel que o próprio mestre.

Basílio até pede a Dorian que se afaste de Lord Henry para não sofrer influências, mas é em vão tal pedido. Ao terminar o quadro de Dorian, este não mais se interessa por frequentar a casa de Basílio e passa a ser amigo presente de Lord Henry. Como o Lord Henry Harry é um convidado polêmico e inteligente sempre recebe convites para todos os encontros da elite inglesa. Muito perspicaz carrega com ele Dorian que é a pessoa mais atraente e sedutora de todos os eventos sociais a que comparecem.

Como que acordado de sua internalizada beleza, Dorian sofre fortes influências por ser tão idolatrado por Basílio e depois por Lord Henry e acaba se tornando um ser narciso. Era consultado por todos para dar opinião sobre tudo que envolvia beleza e charme, desde uma roupa à decoração de um ambiente. Dorian poderia viver só de sua beleza. Todos o idolatravam, além disso, tinha uma boa posição social.

Despertado para sua beleza ímpar, Dorian olhando seu quadro pintado por Basílio inicia um processo de obsessão por sua aparência jovem e linda; pelo poder da beleza passa a influenciar e seduzir a todos. Nesse frenesi Dorian acaba fazendo um pacto, sem perceber, com a obra inusitada de Basílio. O quadro perfeito de Basílio. Dorian não mais envelhece e nem mesmo após 18 anos de vida, enquanto todos vão envelhecendo e querendo saber o segredo - que está no quadro pintado - de Dorian por Basílio Hallward.

Com tanto poder e também muitos conflitos Dorian chega a matar o próprio pintor em um crime perfeito, nunca descoberto. Dorian faz muitas vítimas de sua beleza, alguns até comentem suicídio.

No final, Dorian percebe que não pode mais viver com tantos desatinos. Quer ser um homem bom, totalmente arrependido de tudo que fez, mas não percebe que destruir o quadro que tanto escondeu de todos e que envelhecia em seu lugar, jamais lhe daria uma nova chance de viver.

É importante também olhar as inúmeras descrições históricas e científicas que enriquecem a narrativa, que também é um recurso delicado que pode desanimar alguns leitores. São descrições que perambulam por vários diálogos e filosofias de vida.

Lord Henry também enriquece muito a narrativa. Ele consegue ver a vida por um ângulo muito interessante em todos os sentidos e o mais lindo é a profundeza da alma humana que a narrativa explora. A nossa dicotomia do existir. Assim, com tantos recursos discretos e perfeitos, a narrativa é bem diferente. Uma mistura na medida perfeita de sabedoria existencial, drama e terror que NÃO nos deixa limitar sua classificação literária, a qual vai além do comum. Só podemos classificá-lo segundo a própria teoria da literatura: um verdadeiro clássico de leitura obrigatória.

No final da leitura essa pergunta retirada do próprio livro é indispensável: Qual o proveito de um homem que ganha o mundo inteiro, mas perde a sua própria alma?


 

A REPÚBLICA DOS SONHOS - NÉLIDA PINÕN

 

Verdadeiro arquivo da História do Brasil... de cara para aquele sistema de montanhas, acreditava ver o desfilar a crucial história da organização brasileira. Até chegando a ouvir os lamentos e brados dos bandeirantes, dos contrabandistas, dos cristãos novos, dos arrecadadores do ouro, avançando oeste adentro em vacilantes carroças e nos lombos dos animais. Uma humanidade pronta a servir de base para a formação de um povo claudicante.

Com discurso direto e outras livre indireto a narrativa nos carrega em ávidas leituras sem saber ao certo quem fala, mas sem se apavorar bem no final de cada capítulo conseguimos identificar cada detalhe que a narrativa mais do que rica nos passa.

Valoriza-se tanto cada personagem que fica difícil identificar o personagem principal, como se os secundários fossem apenas as classes, grupos, nunca a família de Madruga. Madruga um imigrante

É melhor dizer que dentro da história da ditadura brasileira e da história do Brasil, há uma história maravilhosa de Madruga um senhor que chega aos seus oitenta anos e que desde o início do livro vê a esposa no leito esperando a morte. Com vários filhos, cada qual com sua personalidade, cada qual um riquíssimo personagem que encanta a cada página virada. É uma narrativa deliciosa e historicamente fascinante. Foi o melhor jeito que conheci a história do Brasil com seus imigrantes e suas terras tão longe de nós, se aventurando no Brasil.

No Rio de Janeiro-Leblon a obra inicia com a esposa morrendo. Madruga sai da Galícia aos 13 anos com a ajuda do tio Justo, na época era homem de verdade aquele que conseguisse sair de um lugar gasto como Galícia e fosse para a terra descoberta, linda e nova, o Brasil –  das lendas de Galícia – que se  fala em toda a narrativa, mas não se contou nenhuma delas. 

Pai Ceferino e mãe Urcesina difícil deixá-los, mas Madruga consegue ficar no Brasil. Um amigo de 30 anos – Venâncio que muito amava Eulália – esposa de Madruga. Uma neta que parece a protagonista em algumas partes da narrativa ficou exilada em Paris por dois anos. A única que voltou à terra do pai – com 10 anos de idade – a Espanha.

Seus filhos: Esperança a filha que morreu ao chegar no Brasil na viagem de Espanha para o Brasil.  Tobias último filho, o mais carinhoso com Eulália –  pertencia à UNE - defendia as causas perdidas da ditadura, advogado dos pobres, envolvia-se com os casos das mães que perdiam os filhos nos escombros da maldade da prisão, não havia justiça no Brasil; Miguel casado com Silvia Antônia invejosa de Esperança (segunda – a primeira faleceu ao chegar no Brasil) uma mulher que gerava tensões e fantasias excessivas na família; Bento se casou com a filha de Juscelino Kubstcheck – escolhida a dedo – já que Bento era o filho que tinha complexo de inferioridade na família e assim agia para sobressair em tudo nos negócios do pai, era o mais ajuizado. Tinha Luis Filho – marido de Antônia – um almofadinha que vivia à custa de Madruga.

É uma narrativa histórica-psicológica com riquezas impressionantes, tamanha a beleza com que se traduz tão perfeitamente um momento histórico, um romance e uma realidade na qual vivemos e não poderíamos descrevê-la com tanta exatidão como faz a autora. São prolepses – passado e presente – e a minuciosa capacidade de se descrever até mesmo o som da fala de Tobias pelos lábios de Eulália, belo demais. Fica dificílimo descrever a metalinguagem com tanta perfeição em detalhar cada momento da obra num todo.

Enquanto Madruga enriquecia e desvendava os caminhos práticos da vida, Venâncio – seu braço direito e pode-se dizer também esquerdo – ficou com todos os sonhos, lendas e sensibilidade de Madruga e não suportou a realidade e nem a exploração de tantos que assaltavam países como o Brasil, sem qualquer obstáculo. Venâncio perdeu toda ilusão e foi padrinho de Tobias, o qual herdou do padrinho todo esse lado sensível, pois eram muito amigos. Foram 30 anos de amizade entre Venâncio e Madruga.

Os capítulos nos impulsionam a querer ver o final sem nem mesmo importar com o equilíbrio da narrativa, sem qualquer clímax, apenas a morte de Esperança que só foi explicada na página 300, mas com muitos capítulos que começam com personagens diferentes em lugares mais diferentes ainda, porém todos interligados ao ponto inicial da narrativa, a dor de Madruga e dos filhos com a mãe no leito de morte.  É como uma viagem sem fim, uma viagem deliciosa de se fazer. A riqueza histórica-psicológica faz-sina. Parece que na velhice – o cansado jovem conquistador – passa a narrativa para as mãos de sua neta querida.  A descrição da família ao olhar um quadro na parede foi um recurso apreciável demais, rico demais. Como é difícil resenhar um livro com tantas e tantas riquezas.

Historicamente há um resumo interessante: o rio de janeiro se diverte, é descansado; Brasília é abusiva, nada representa; São Paulo não para, progredir é seu lema; Belo Horizonte é calma, acha-se a melhor cidade do país.

A República dos Sonhos é uma obra-prima com uma precisão de fatos históricos, literários e psicológicos, que só como Garcia Marques e seus Cem anos de Solidão podemos analogar.